"Tudo que é sólido se desmancha no ar”, já dizia nosso velho e bom Karl Marx. E é exatamente essa a sensação que temos ao entrar no curso de Ciências Sociais. Em primeiro lugar, se sobrepõe a dificuldade de explicar aos pais e amigos o que é esse curso, escolhido às vezes por falta de opção, às vezes, por convicções revolucionárias ou, simplesmente, por um cálculo racional quanto às possibilidades de passar no vestibular. Muito bem, anos depois, nos formando, ainda não sabemos explicar ao certo o que é essa ciência que escolhemos para nossa graduação e, provavelmente, para o resto de nossas vidas.
Depois, no decorrer vêm as diversas crises. Muitos textos para ler, uma infinidade de atividades possíveis, áreas distintas, conceitos até então firmes que se tornam pó nas 2 primeiras aulas de sociologia. Vem a crise do terceiro semestre e com ela, metade da turma desaparece e então, facilmente entendemos porque sociais não tem, definitivamente, turmas fixas. As disciplinas optativas fazem com que tenhamos aulas com gente que já está no curso há quase 10 anos. Vamos a festas com os tipos mais distintos de pessoas e vemos, claramente, as mudanças pelas quais passam nossos colegas e que, no fundo, sabemos que também estamos passando. Quem tinha namorado terminou, quem era casado separou, os solteiros convictos agora têm filhos e família própria...até o tipo de música que escutamos foi sendo modificado pelas influências de um lugar místico chamado Reitoria da UFPR. Nos envolvemos nos mais diversos movimentos, manifestações, organizações políticas ou anti-políticas. Vimos a Polícia ser chamada para resolver problemas políticos e, nós, cientistas sociais em formação, aprendemos bem que os problemas do nosso país não se resolvem com polícia. Aprendemos que é nosso papel refletir sobre o que parece obvio, questionar o que parece certo e relativizar até os valores ditos universais.
Os professores aqui homenageados são aqueles que nos mostraram – e não são os únicos, ainda bem! – que nossa ciência é tão incerta quanto o mundo que pretendemos entender e, porque não?, também melhorar. Mas a incerteza, mesmo que eterna, é melhor que o dogma confortador e a dúvida é a única certeza que temos desde que adentramos ao mundo das ciências sociais e passamos a enxergar as coisas por outro ângulo. Nós nos tornamos os chatos de qualquer turma! Aqueles que vêem opressões, as mais variadas, em qualquer ambiente, em todas as relações e que têm sempre uma crítica “construtiva” a fazer. Mas também somos a suposta autoridade para falar de praticamente qualquer coisa nas rodas de conversa. Temos conhecimento (ainda que vago pelos textos lidos de madrugada) sobre o que fazem os Argonautas do Pacífico Ocidental (ou Pacífico Sul?), até o que significa o 18 Brumário de Luiz Bonaparte, passando por sociologias de quase tudo: da saúde, da educação, do meio-ambiente, da religião, de gênero, da política...enfim, temos um campo tão vasto de atuação que essa imensidão nos assusta.
Tendemos à especialização. Não que ela não seja necessária, em um mundo cada vez mais exigente e faminto de novas descobertas. Só precisamos ter o devido cuidado para não fazermos sociologia daquilo que ninguém mais conhece e, principalmente, que nosso conhecimento não seja tão abstrato e complexo, disfarçando dúvidas conceituais com palavras ininteligíveis, que mais ninguém, além dos próprios iniciados na ciência da sociedade, possa entender o que falamos e ter interesse no que estudamos. Somos uma ciência do social, que deveria, como qualquer ciência, conquistar também reconhecimento social. Como fazer isso? Não há um caminho pré-moldado, mas com certeza esse caminho passa por algo que, em nosso curso, ainda é veementemente ignorado. Uma palavrinha que é quase tabu, que todos sabem o que significa, mas que poucos se arriscam a tentar compreendê-la de fato: licenciatura!
Boa parte dos que se formam o fazem no bacharelado e vão deixando as disciplinas da licenciatura para trás. Aliás, disciplinas estas que muitas vezes, ao invés de nos encorajarem, nos fazem desistir de vez de sermos professores. Educadores então, num sentido mais amplo, em nossa área ainda é uma raridade. Estupefados com a complexidade das questões sociológicas, antropológicas e políticas, engessados diante de um sistema educacional que privilegia o tecnicismo, não sabemos como poderemos, algum dia, ser professores de ciências sociais para adolescentes. Nos parece, com certeza, muito mais plausível o mundo acadêmico ou a atividade profissional, mesmo que ainda debilmente desenvolvida, mas bem longe das escolas.
Aliás, outra grande contradição de nossa área. Como uma ciência que pode estudar quase tudo não tem campo de trabalho? Somos agora formados, mas não queremos engavetar o diploma e não trabalhar nessa área que escolhemos. Este é outro desafio de nossa jovem geração de cientistas sociais. Temos muito o que conquistar nessa sociedade que é nosso objeto de estudo. Há espaço para nós em cada canto, precisamos, no entanto, ainda nos convencer de nossa própria importância. Num mundo que explode diariamente em conflitos, em que predominam as crises, a concorrência desleal, o capitalismo da nova era, avassalador, corroendo o planeta ambiental e socialmente. Não há porque não nos inserirmos em cada canto, cada um com sua análise, tentando, conforme nossas possibilidades, entender os processos sociais que quase nos atropelam a cada dia. Seja na demarcação de terras indígenas e quilombolas, seja nas crises políticas e nas eleições, sejam as novas biotecnologias, as novas religiões pentecostais, as questões de gênero ou diversos outros “neo” fatos, estamos pesquisando, buscando dados e teorias, tentando, de forma quase heróica numa periferia científica, cultural, econômica e social, compreender os processos, ver suas causas e apontar para possíveis conseqüências...e, porque não?, soluções!
Talvez o que nos falte não seja campo de trabalho, mas ao contrário, uma delimitação dele, já que podemos sim fazer parte das mais diversas áreas, nos mais distintos projetos...nossa contribuição pode e deve ser aproveitada. Em primeiro lugar, porque podemos apontar coisas que outros profissionais, de outras áreas, não podem. Em segundo lugar porque estudamos vários anos em uma universidade pública, com o dinheiro público. Muitos de nós fomos bolsistas, outros não tiveram esse privilégio e trabalharam duro para conciliar sobrevivência financeira aos estudos, mas fomos, todos, privilegiados. Privilegiados por escolhermos área tão árdua, mas tão fascinante para estudar e trabalhar. Privilegiados por, dentre outros mais de 80 que entraram conosco, termos chegado ao final, privilegiados por estudarmos em uma universidade pública e gratuita, que, apesar de muitas vezes atacada por um privatismo irresponsável, ainda é, em nosso país, o reduto de boa educação e formação intelectual.
Somos, portanto, devedores. Devemos nossa parte de retorno – econômico também, é claro, mas principalmente social, nossa suposta especialidade – para com a comunidade que nos cerca e que, mesmo sem saber, custeou nossos estudos. Que responsabilidade é essa? A responsabilidade de quem enxerga a sociedade por um prisma sociológico. Responsabilidade de quem tem o dever ético e social, de defender a educação pública como forma de proporcionar alguma mudança social em nosso país.
Responsabilidades, tarefas, sonhos e trabalho não nos faltam...agora, creio que, cada um a seu modo já está buscando isso, nos cabe perceber nossa função social nesse emaranhado em que vivemos e usar, de forma honesta para conosco e para com os outros, tudo o que aprendemos nesses vários anos de estudantes de ciências sociais.
Cada cabeça, um sentido para a vida. Cada um de nós com suas peculiaridades, ideologias, crenças e dúvidas, mas cada um, a seu modo, tentará, com toda a certeza, fazer desse mundo que vivemos, estudamos e que tanto nos inquieta, um lugar um pouquinho melhor.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
sábado, 26 de setembro de 2009
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