sábado, 25 de abril de 2009

Perguntas a Gilmar Mendes

Perguntas a Gilmar Mendes...
Renato de la Rocha*

1.O sr. sabe algo sobre o "assassinato" de Andréa Paula Pedroso Wonsoski, jornalista que denunciou o seu irmão, Chico Mendes (outro Chico, não aquele famoso), por compra de votos em Diamantino, no Mato Grosso?

2.Qual a natureza da sua participação na campanha eleitoral de Chico Mendes em 2000, quando o sr. era advogado-geral da União?

3.Qual a natureza da sua participação na campanha eleitoral de Chico Mendes em 2004, quando o sr. já era ministro do Supremo Tribunal Federal?

4.Quantas vezes o sr. acompanhou ministros de Fernando Henrique Cardoso a Diamantino, para inauguração de obras?

5.O sr. tem relações com o Grupo Bertin, condenado em novembro de 2007 por formação de cartel? Qual a natureza dessa relação?

6.Quantos contratos sem licitação recebeu o Instituto Brasiliense de Direito Público, do qual o sr. é acionista, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso?

7.O sr. considera ética a sanção, em primeiro de abril de 2002, de lei que autorizava a prefeitura de Diamantino a reverter o dinheiro pago em tributos pela Faculdade de Ciências Sociais e Aplicadas de Diamantino, da qual o sr. é um dos donos, em descontos para os alunos?

8.O sr. tem alguma idéia do porquê das mais de 30 ações impetradas contra o seu irmão ao longo dos anos jamais terem chegado sequer à primeira instância?

9.O sr. tem algo a dizer acerca da afirmação de Daniel Dantas, de que só o preocupavam as primeiras instâncias da justiça, já que no STF ele teria "facilidades" ?

10.O segundo habeas corpus que o sr. concedeu a Daniel Dantas foi posterior à apresentação de um vídeo que documentava uma tentativa de suborno a um policial federal. O sr. não considera uma ação continuada de flagrante de suborno uma obstrução de justiça que requer prisão preventiva?

11.Sendo negativa a resposta, para que serve o artigo 312 do Código de Processo Penal segundo a opinião do sr.?

12.Por que o sr. se empenhou no afastamento do Dr. Paulo Lacerda da ABIN?

13.Por que o sr. acusou a ABIN de grampeá-lo e até hoje não apresentou uma única prova? A presunção de inocência só vale em certos casos?

14.Qual a resposta do sr. à objeção de que o seu tratamento do caso Dantas contraria claramente a "súmula 691" do próprio STF?

15.O sr. conhece alguma democracia no mundo em que a Suprema Corte legisle sobre o uso de algemas?

16.O sr. conhece alguma Suprema Corte do planeta que haja concedido à mesma pessoa dois habeas corpus em menos de 48 horas?

17.Por que o sr. disse que o deputado Raul Jungmann foi acusado "escandalosamente" antes de que qualquer documentação fosse apresentada?

18.O sr. afirmou que iria chamar Lula "às falas". O sr. acredita que essa é uma forma adequada de se dirigir ao Presidente da República? O sr. conhece alguma democracia onde o Presidente da Suprema Corte chame o Presidente da República "às falas"?

19.O sr. tem alguma idéia de por que a Desembargadora Suzana Camargo, depois de fazer uma acusação gravíssima – e sem provas – ao Juiz Fausto de Sanctis, pediu que a "esquecessem" ?

20.É verdade que o sr., quando era Advogado-Geral da União, depois de derrotado no Judiciário na questão da demarcação das terras indígenas, recomendou aos órgãos da administração que não cumprissem as decisões judiciais?

21.Quais são as suas relações com o site Consultor Jurídico? O sr. tem ciência das relações entre a empresa de consultoria Dublê, de propriedade de Márcio Chaer, com a BrT?

22.É correta a informação publicada pela Revista Época no dia22/04/2002, na página 40, de que a chefia da então Advocacia Geral da União, ou seja, o sr., pagou R$ 32.400,00 ao Instituto Brasiliense de Direito Público - do qual o sr. mesmo é um dos proprietários - para que seus subordinados lá fizessem cursos? O sr. considera isso ético?

23.O sr. mantém a afirmação de que o sistema judiciário brasileiro é um "manicômio"?

24.Por que o sr. se opôs à investigação das contas de Paulo Maluf no exterior?

25.Já apareceu alguma prova do grampo que o sr. e o Senador Demóstenes denunciaram? Não há nenhum áudio, nada?

Mais duas perguntas:

26. V.Exa. confirma ou desmente a informação abaixo:

"Como peru de natal (Adriana Vandoni)
O leitor que assina "To fora" me alertou para uma observação feita pelo jornalista Helio Fernandes, em sua coluna de hoje no jornal A Tribuna, que, se comprovada, é um acinte à moralidade do judiciário brasileiro. Mas um cometido pela mesma pessoa. Segundo o jornalista, o ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, passou o natal na casa do advogado de Daniel Dantas. Ele termina seu artigo com a questão: "Passar o Natal na casa do advogado de Daniel Dantas, como fez o ministro Gilmar Mendes, é prova de "boa conduta?"".

Juridicamente até pode existir uma norma que legitime tal ato, afinal, nada mais normal que uma pessoa passar o natal na casa de amigos. Mas esta situação, se confirmada, é totalmente amoral. É um deboche à população brasileira. O comportamento deste ministro não chega a me escandalizar, seus atos são exatamente na medida do que eu esperava dele.

27. V. Exa. em seus momentos de reflexão e humildade, se é que tem esta última, já se auto-questionou sobre seus verdadeiros méritos para chegar ao honroso cargo de Ministro da mais alta corte de justiça do país, se o Brasil inteiro sabe que lá chegou pela catapulta da amizade e do poder político ?

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Torturas, punição e democracia


Não estou exatamente convencida que "mexer na ferida" dos militares no Brasil seja seguro, mesmo hoje, mais de 20 anos depois do fim do regime militar! Mas, com a iniciativa da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA de denunciar, mais de 30 anos depois, o desaparecimento de 70 pessoas (com mortes e torturas) na época da guerrilha do Araguaia, fiquei pensando no caso Argentino (ultimamente tenho comparado muito o Brasil com a Argentina) em que os ditadores acusados de torturas estão sendo condenados, depois de 25 anos de democracia - caso exemplar dos torturadores de Tucuman, condenados em outubro passado!

No Brasil sempre tivemos medo de condenar os ditadores, os torturadores e corruptos de nosso regime militar. Medo de que as passeatas "Da família, com Deus, pela liberdade" voltassem a tomar as ruas. Medo que a censura já habitual do AI-5 já não fosse passado, que os militares saíssem outras vezes dos quartéis...

Por isso disse que não estou convencida, já que esse medo ainda habita as mentes e corações de muitos (e também os sonhos mais lunáticos de certos militares), entretanto, creio que o que faz falta os Brasil é memória!

Memória política, construída a partir dos "esquecimentos" que foram construídos. Esquecemos da violência, negamos o conflito, esquecemos os nomes e as caras dos ditadores (e os elegemos na democracia!). Essa memória política e coletiva, que sobra aos argentinos, tem feito falta ao brasileiros, sem história, sem lutas e sem conquistas! Permitimos assim que a lógica da dádiva se reproduza de forma impressionante. Nada foi conquista, tudo é benesse do Estado, dos líderes.

Mesmo o único que temos a memória de que "nós tiramos" (apesar de ser discutível até onde esse nós pode ser substituído por "Rede Globo"), o Collor, está lá, senador, presidente de comissões, homem honrado entre todos os outros!

Da mesma forma os militares seguem ali, impunes os coronéis e generais da ditadura, aqueles que ainda não estão velhos demais para atuarem, ainda que nos bastidores, seguem impedindo que se construa uma memória de luta, conflito e lembrança da ditadura - com consequente respeito pela democracia??? - que poderíamos ter.
*Imagem: General Ernesto Geisel, ditador (1974 - 1979)

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Marxismo no século XXI

Vou divulgar aqui alguns textos que estão sendo produzidos e organizados por pensadores marxistas...o tema, é claro, é o marxismo - no século XXI!

Começamos com Chico de Oliveira, o "curador" dessas produções.

"A Carta Maior lança a partir de hoje um seminário virtual sobre a obra de Karl Marx e os problemas que afetam a humanidade neste início do século XXI. Diante da grave crise econômica, política e social, decorrente das políticas do modelo neoliberal implementado nas últimas décadas no mundo, o pensamento do autor alemão voltou à ordem do dia. A nova editoria terá a curadoria do professor Francisco de Oliveira, que escreverá e convidará, mensalmente, intelectuais para abordar o tema num debate que se estenderá até o final do ano e procurará ofecerer respostas à pergunta: o que Marx tem a dizer sobre os problemas do século XXI?

Francisco de Oliveira* - Texto de apresentação

O marxismo seguramente foi a doutrina mais importante do século XX, no amplo sentido de um “campo” (Bourdieu) ou ainda no sentido de ideologia (Gramsci) e não no dos próprios Marx e Engels.(como doutrina dominante da classe dominante.) A tal ponto que se pode dizer que o século XX foi o século do marxismo. A partir das formulações originais da dupla Marx-Engels, o marxismo foi se constituindo numa concepção de história, numa visão de mundo, numa prática de luta, numa política, diretamente na crítica ao capitalismo, seu inimigo figadal. Desde o século XIX, formações partidárias nitidamente operárias criaram-se inspiradas nas idéias da dupla, tais como o prestigioso Partido Social-Democrata alemão, do qual o próprio Engels foi militante e dirigente, e o Partido Socialista Operário Espanhol. Todos os demais partidos de origem operária na Europa Ocidental, e mesmo na Índia, tinham o marxismo como sua orientação teórico-prática mais consistente.

Deve-se dizer, sem apologia acrítica, que esse vasto campo construiu-se cheio de contradições, que fizeram sua riqueza, até que a mão pesada do Partido Bolchevique, vitorioso na Revolução de 1917, em seguida Partido Comunista da URSS, converteu o marxismo num dogma, e matou, em grande medida, sua capacidade criadora, que requer, antes de tudo, sua própria autocrítica. O marxismo havia chegado à Rússia pelas mãos de teóricos do calibre de Plekhanov, e deu origem imediatamente a um movimento político que tomou explicitamente a forma de partido lutando pela Revolução e pelo poder, com seus dirigentes que se transformaram em condotiere mundiais, Lênin e Trotsky, para citar apenas estes. Todos os partidos de origem operária o tinham como sua referência principal, salvo, talvez, e ironicamente, o Partido Trabalhista britânico onde o fabianismo e a rejeição à revolução logo dominaram a cena trabalhista inglesa, na contramão de Marx que havia pensado que o crescimento do operariado faria aparecer um pensamento e uma prática revolucionárias. Mas nunca deixou de haver não só uma fração de trabalhistas ingleses marxistas, como uma tradição teórica sobretudo na área da História, como o prova até hoje, Hobsbawm, e ontem, Laski, na teoria política. Mas a contribuição do velho Labour para a formação das políticas do Estado do Bem-Estar talvez tenha sido a mais importante.

Esse vasto movimento chegou até às ex-colônias. O Brasil conheceu a formação de seu Partido Comunista já em 1922. Mesmo refluindo das posições revolucionárias, os partidos de origem social-democrata mais que influenciar, de fato, inseriram as lutas sociais para sempre na política. Todo o vasto movimento do Estado do Bem-Estar radicou na capacidade de operação dos partidos de origem operária, a socialização da política a que aludia Gramsci, o que elevou o nível de vida nos países do Ocidente capitalista a níveis que deixaram o programa inicial de Lênin como mero exercício teórico. Aliás, o “pequeno grande sardo” é um dos marxistas mais originais e criativos, que contribuiu poderosamente para que o próprio marxismo entendesse e explicasse as democracias ocidentais.

Recusando-se a fazer da política uma dedução da economia – o que, infelizmente, ocorre hoje – Gramsci, nos cárceres do fascismo mussolinista, deu as diretrizes que tornaram o então Partido Comunista Italiano o mais original e o mais capacitado a dirigir a nova Itália democrática. Aqui, mais uma vez, a história pregou uma peça: o progresso italiano, de que o partido de Gramsci foi o avalista em parceria – o “compromisso histórico” – com os cristãos do Partido da Democracia Cristã, terminou por solapar as bases sociais de ambos, e o PCI mergulhou numa longa decadência da qual há apenas vestígios em meio às ruínas das grandezas de Roma. Mas o marxismo carrega nas costas o pesado fardo do estalinismo e do terror soviético, sem que os marxistas tenham, até hoje, revelado a capacidade de explicar, marxisticamente, a tragédia em que desembocou a revolução mais radical da era moderna. Não é suficiente a explicação materialista-vulgar de que todas as grandes revoluções comeram seus próprios filhos; tampouco justificar a cruel ditadura do georgiano – que na verdade já se ensaiava sob Lenin - pelas realizações técnico-científicas da ex-URSS: todos os marxistas nunca deveriam esquecer a lição do próprio Marx e dos frankfurtianos de que “progresso e barbárie” sempre formaram na história universal uma terrível unidade.

A partir de certo momento, ficou muito evidente que o “marxismo soviético” (a expressão é de Marcuse) não era outra coisa senão uma doutrina de grande potência arrogantemente usurpadora das tradições marxistas. Mesmo a crítica trotkysta, que cedo viu a “degeneração burocrática” do Partido, e a também ainda mais precoce crítica de Rosa Luxemburgo, junto com a postura de Kautsky, não foram suficientes – nem o poderiam ser, já que o terror estalinista mal havia mostrado suas garras já sob a criação da temível e terrível Cheka sob Lênin. Nos fins do século que acabou, talvez nas pegadas da explicação de Perry Anderson para o que ele chamou de “marxismo ocidental”, a combinação da desestruturação produtiva, com a revolução técnico-científica e paradoxalmente o próprio progresso levado a cabo pelo Estado do Bem-Estar desbarataram a própria classe operária e seus partidos social-democratas e comunistas; o “marxismo ocidental” descolou a reflexão teórica da perspectiva revolucionária. Deixou de influenciar a política e, pois, a luta de classe organizada, e refugiou-se nos trabalhos acadêmico-científicos. Mesmo assim, na universidade, que apenas durante um curto período – uns 40 anos , se tanto – abriu-se para o marxismo, o movimento também refluiu. Mas, surpreendentemente, a força criadora do marxismo abriu novas fronteiras , mesmo em terrenos que lhe eram anteriormente hostis e com os quais, ele mesmo, teve relações conflitivas e lhes dirigiu anátemas dogmáticos.

É o caso das religiões- antes o “ópio do povo”, da psicanálise ,-uma ciência do inconsciente da justificação burguesa dos seus próprios crimes -, da própria literatura (nos caminhos já originalmente pensados por Lukacs), na critica da cultura e da modernidade – os frankfurtianos – da hegemonia norte-americana, Gramsci e seu “americanismo e fordismo”. Esses terrenos todos foram imensamente fecundados pelo marxismo, que lhes ampliou os horizontes. A pergunta que essa curadoria quer fazer é direta: e o século XXI e no século XXI ? O que o marxismo pode vir a ser, o que o marxismo tem a dizer? O século abriu-se com a maior crise econômica, mundial, global, desde os dias da Grande Depressão de Trinta. Mesmo sobre esta, o que o marxismo disse “no calor da hora” não honrou muito as tradições da economia política marxista, que é seu terreno e sua certidão de nascimento. Economistas como Ievguin Varga passaram a certidão de óbito do capitalismo na crise de 1929.

E agora, que crise é esta? François Chesnais tem dado orientações teóricas muito férteis, sobre a transição para um regime de acumulação à dominância financeira. E que mais ? Não há marxismo sem marxistas; estes não são muitos, hoje, no Ocidente. No Brasil, às vezes tem-se a impressão de que o marxismo floresce sobretudo na universidade, na área de humanas, e ilumina muitos nichos da crítica. Mas nos partidos de esquerda, o marxismo é quase sempre um indesejado e no operariado ele é mais, é desconhecido. Operariado aliás, hoje multifacetado, reduzido nos locais produtivos, abundante nos locais de serviço, milhões nos trabalhos informais, uma grande classe não-classe.

Será possível combinar reflexão criadora, novas interpretações do mundo, descoladas do trabalho? As explorações sobre essas intrigantes questões não se farão com um marxismo ensimesmado, sectário e doutrinário; mas não se trata de proclamar um ecletismo despolitizado: as interrogações partem da tomada de posição de que o marxismo pode ainda alimentar as lutas pela transformação social e política, senão com a transcendência e abrangência mostradas no século XX, pelo menos com uma postura crítica que não se deixará seduzir nem pelo apocalipse nem pelo conformismo. Em suma, um marxismo dialógico e dialético."

*Chico de Oliveira é cientista político, professor da USP

terça-feira, 7 de abril de 2009

Democracia para quem, cara pálida?

Bruno Pinheiro Wanderley Reis*

Há vinte e poucos anos, no fim da ditadura, um slogan ganhou curso nas universidades brasileiras e terminou emplacando: Diretas pra reitor. Estou convencido de que este sucesso é algo a se lamentar – e reverter, a bem da sobrevivência da universidade pública brasileira. Por muitas razões.

A justificativa natural para as diretas prende-se a uma saudável aspiração por democracia. Não damos, porém, consideração detida a essa idéia: o que é uma universidade democrática? Em tese, uma decisão será democrática se nela os interesses afetados se fizerem ouvir e interferirem em seu resultado. Só que, afinal, quais são os interesses afetados aqui? São apenas os nossos? A quem serve a universidade? Se entendemos que ela serve ao público de maneira ampla, a conclusão é inevitável: o eleitorado relevante não se confina a nossos muros. Vamos então convocar a população de Minas para votar? Só que é difícil acreditar que a universidade estará mais apta a cumprir sua missão junto ao público quando o povo votar para reitor. Por que será?

De fato é simples: a universidade tem objetivos institucionais permanentes (independentes das vontades imediatas daqueles que a compõem ou que são por ela atendidos) que devem orientar as decisões que toma. Já o sufrágio universal destina-se a apurar as vontades dos eleitores, e só. O voto é, afinal, secreto, e sua validação dispensa argumentação. É legítimo postular que uma comunidade política não se presta a outra coisa senão servir às pessoas que nela vivem. Mas o mesmo não se pode dizer da universidade pública. Ela não pode curvar-se à vontade do público externo – porque é universidade. Mas tampouco pode subordinar-se apenas à vontade de seus membros – porque é pública. Aqui, não somos cidadãos. Somos servidores.

Além de problemas de legitimação externa, o costume atual tem graves implicações sobre nossa coesão institucional. O aspecto mais saliente quanto a isso é a insolúvel questão da ponderação dos votos de nosso eleitorado corporativo, que nossa precária imitação do sufrágio universal nos tem imposto. O mero fato de impelirmo-nos a ponderar votos nessas eleições deveria ser indicação suficiente das impropriedades envolvidas. A universidade é uma organização burocrática – e, como tal, hierárquica. Porém, quando nossos procedimentos conferem saliência à nossa divisão entre discentes, docentes e técnico-administrativos, ela se torna estamental.

Não se pode convidar uma pessoa a tomar parte numa decisão coletiva e depois conferir às suas opiniões um valor menor que às de seus pares. Isto insulta a dignidade humana. Se há razões para esperar que tais ou quais pessoas exerçam maior influência sobre os destinos da universidade, então esta influência deve se mostrar publicamente, formalmente, na composição do órgão responsável pela decisão.

É simplesmente inconsistente convidarmos a todos para tomar parte numa decisão para, em seguida, esclarecermos que as opiniões de uns valerão 80 vezes mais que as de outros. Deixamos de lado o que há de melhor no sufrágio – o igualitarismo que nos impõe a obrigação de considerarmos a opinião de cada um – para ficarmos com o que há de pior nele – a remissão a uma agregação massificada de votos, que permite contornar o debate ou prescindir dele. Não por acaso, estudantes e funcionários têm rejeitado com veemência a forte desqualificação de seus votos – sinal de que o insulto não é figura de retórica.

Mas há outro problema grave. Hoje o primeiro ato formal do processo é a inscrição de chapas de candidatos aos cargos em disputa. Mas, como assim, candidatos? De quem? Em nome de quê? Não há convenções, não há prévias, pois afinal não há (nem poderia haver) partidos – e não chega a haver imprensa que não seja a oficial. Toda conversa sobre candidaturas é não pública, estritamente informal. Quando o eleitor típico se dá conta de que haverá eleição, os candidatos já estão registrados. E o jogo, feito.Complexa é a organização institucional da universidade.

Complexos os seus propósitos, complexas as relações com a sociedade que a mantém. É preciso conceber instrumentos que respeitem essa complexidade e propiciem deliberação conjunta por debate publicamente referido – e não subordiná-los a importações caricatas da “grande política”.

Em nome dos valores que nos constituem, temos de ser capazes de adensar o debate coletivo formal e a deliberação pública institucionalmente orientada, em vez de simplesmente contarmos cabeças com pesos variados. Para tanto, podemos nos mover rumo à constituição de algum órgão eleito por todo o corpo acadêmico, possivelmente complementado por membros natos, que assuma a responsabilidade de compor, por escrutínios sucessivos com quórum qualificado (três quartos?), sem candidaturas formalmente inscritas, listas de nomes que logrem consenso interno e respaldo externo suficientes para dirigir a universidade.

Hoje, ao contrário, somos presa de um procedimento que insulta funcionários e estudantes, é desprezado por muitos professores, fragmenta profundamente a instituição e, por fim, não dá qualquer consideração – sequer formal – ao público externo, a quem devemos nossa própria razão de ser. Se nosso propósito é nos destruirmos, estamos bem servidos.

* Professor do departamento de Ciência Política da Fafich (UFMG)

sábado, 4 de abril de 2009

Raposa do Sol

Por José Saramago*

Lá de longe em longe o dia amanhece diferente. Que o digam os índios da reserva indígena da Raposa do Sol no Estado de Roraima, ao norte do Brasil, a quem o Supremo Tribunal Federal acaba de reconhecer e confirmar definitivamente o seu direito à plena posse e ao uso pleno dos mil quilómetros quadrados de superfície da reserva. A sentença não deixa qualquer margem a dúvidas: os não índios devem sair imediatamente da Raposa do Sol, assim como as empresas arrozeiras que durante anos invadiram o território e nele se instalaram abusivamente. Já em 2005 o presidente Lula havia decidido a entrega da reserva aos indígenas e a saída das empresas arrozeiras, mas as autoridades do Estado de Roraima, favoráveis aos arrozeiros, recorreram ao Supremo Tribunal por considerarem inconstitucional o decreto presidencial. Quatro anos depois o Supremo decide a questão e põe uma definitiva pedra sobre o assunto. Nem tudo, porém, são rosas neste idílico quadro. Afinal, a luta de classes, tão discutida em épocas relativamente recentes e que parecia haver sido condenada ao caixote do lixo da História, existe mesmo. Com esta visão unilateral que temos, nós, os europeus, dos problemas sociais da América Latino, tendemos a ver unanimidades onde elas não existem nem existiram nunca. Na Raposa do Sol, os índios endinheirados, que também lá os há, fizeram causa comum com os não índios e com as empresas arrozeiras. A festa foi dos outros, dos pobres.

Cá para baixo, na Cidade Maravilhosa, a do samba e do carnaval, a situação não está melhor. A ideia, agora, é rodear as favelas com um muro de cimento armado de três metros de altura. Tivemos o muro de Berlim, temos os muros da Palestina, agora os do Rio. Entretanto, o crime organizado campeia por toda a parte, as cumplicidades verticais e horizontais penetram nos aparelhos de Estado e na sociedade em geral. A corrupção parece imbatível. Que fazer?

*Publicado em O Caderno de Saramago, site oficial do grande escritor português.

ps: Um dia vou escrever assim tbm!

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Migraciones y crisis

Una ciudad de Entre Ríos no quiere recibir a los pobres de Buenos Aires

Los vecinos temen migraciones desde villas porteñas. Una historia de la crisis llena de prejuicios.
Por: Pablo Calvo (enviado especial. Clarin – 2 de abril de 2009.)

Un dorado gigante, al costado de la ruta, da la bienvenida a la ciudad de La Paz. Hay vírgenes en las banquinas, gallinas en las veredas y vacas atadas a los árboles. La suave correntada del río Paraná lleva de paseo a los camalotes y esconde a surubíes de 12 kilos. La vida parece transcurrir dentro de una postal. Pero apenas se llega a la plaza, aparece un conflicto inesperado: los vecinos de las calles asfaltadas exigen a las autoridades que frenen la llegada de pobres desde Buenos Aires. Hablan de un plan secreto para "desparramar" habitantes de las villas porteñas por todo el Litoral y se juntan desde hace un mes para tratar de conseguir pruebas que confirmen sus sospechas.

En las reuniones hay profesionales, docentes, enfermeros, peluqueros, amas de casa, alumnas de escuelas privadas, convocados por un rumor: el que insinuó la posibilidad de que personas de la Villa 31 de Retiro, que es la más antigua de la Capital Federal, aterricen por estos pagos.

Las desmentidas oficiales no calmaron los ánimos: hubo quejas en las radios, petitorios tremendistas y señalamientos que rozaron la xenofobia. Se dijo que había "caras raras" en la ciudad, que el arribo de "subculturas" podría provocar "una colisión con las costumbres locales" y que si entre los pobres había delincuentes, existía la posibilidad de "contagio".

El gobierno municipal hizo lo que ningún otro en tiempos electorales: admitió que aquí son enormes las necesidades básicas insatisfechas y que, por lo tanto, no puede ser anfitrión de más pobreza. "Ante esta realidad social, resulta absolutamente ilógico pensar en traer gente de afuera. ¿Quién va a querer venir de la Villa 31, que queda frente a Puerto Madero, en la ciudad más más rica del país?", se escuda el intendende paceño, Francisco Nogueira, en diálogo con Clarín.

Él es peronista y entre los vecinos "autoconvocados" hay algunos radicales, un condimento más de la pelea. Se vieron frente a frente en el Concejo Deliberante, donde el intendente ensayó un mensaje de tranquilidad a la población que tuvo sus ripios: "Sí es cierto que están llegando personas con familias que se habían ido a trabajar afuera y que han perdido el puesto laboral por la crisis. Vuelven por encontrarse sin trabajo y por la inseguridad de las grandes ciudades".

En los últimos 10 años, la población de La Paz creció de 24.700 a 35.000 habitantes. Y en los últimos meses, el Registro Civil anotó más de 100 cambios de domicilio de personas que, efectivamente, declaraban la Capital Federal o el Gran Buenos Aires como lugar de procedencia. Pronto podrán votar en La Paz. Según los lugareños, las escuelas públicas detectaron más pedidos de vacantes y han comenzado a poblarse potreros, cañadas y zonas sin caminos."Si esto es un contrabando hormiga de personas, no lo frenamos más", dijo un trabajador canoso en una de las asambleas.

En la manzana 428 hay 36 familias nuevas. Como los techos son de polietileno, el lugar fue bautizado "Los Toldos". Los chicos juegan con los pollitos y los padres esperan la llegada de los servicios esenciales.

Fuentes policiales indicaron que cerca de ese barrio se alojan ex convictos "que no han vuelto a traer problemas".

Los vecinos de Los Toldos que salieron al encuentro de Clarín entregaron una carta donde rechazan los señalamientos de los vecinos autoconvocados. "Forman una sociedad cerrada e intolerante. A esa sociedad no queremos pertenecer. Antes de transformarnos en seres insensibles y atrevidos, pertenecientes a 'su' sociedad, es nuestra elección que nos sigan llamando 'gente rara' y nos inventen el origen que menos culpa les genere", dice la carta, donde aseguran haber nacido en La Paz.

El mensaje, que planteó la diferencia de clases entre los motivos del conflicto, tuvo un ghost writer (escritor en las sombas), Luis Garita, vocero de la municipalidad, muy popular por aquí."Chapaleamos barro cuando llueve -dice otro párrafo-, mientras ellos miran el cielo desde su cómoda 4 x 4. Pero no somos delincuentes. Tenemos el mismo derecho que ellos a la vivienda y a la educación".

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Contra a HOMOFOBIA!!!

Estudantes protestam contra homofobia
Filipi Oliveira - 31/03/2009

Os estudantes da UFPR organizam um protesto contra a homofobia, depois que um aluno do curso Ciências Sociais foi brutalmente espancado por skinheads.

Uma reunião nesta sexta-feira vai definir como será esse protesto. A princípio, vai ser uma passeata, em conjunto com outros movimentos sociais, inclusive grupos de discussão de gêneros, como o Dignidade. Os estudantes querem ainda uma resposta da universidade.

O espancamento ocorreu em plena luz do dia. Segundo o jovem, que cursa o último ano de Ciências Sociais, cerca de dez homens o agrediram a socos, pontapés e até pedradas. O rapaz teve várias fraturas na face, a ponto de ter de colocar 16 parafusos. Ele terá de passar por uma cirurgia para correção da mandíbula, que foi deslocada. Segundo a irmã mais velha do rapaz, que não quis se identificar, a recuperação é muito lenta.

O estudante morava sozinho em Curitiba, e a agressão mudou toda a rotina da família. A mãe do jovem, ao saber do espancamento, passou mal e enfrenta problemas de saúde. A irmã mais velha está em Curitiba para acompanhar o tratamento médico. Ela está indignada com a situação.

O jovem foi agredido no último dia 23, por voltas das 18h. A irmã contou que todos os rapazes do grupo estavam vestidos de maneira semelhante e ainda tinha as mesmas características. Eram os skinheads, que têm um direcionamento político e ideológico neonazista.

Esse não é o primeiro espancamento homofóbico registrado em Curitiba neste mês. De acordo com o Grupo Dignidade, dois travestis já tinham sido alvo de agressões. (Fonte CBN Curitiba)