Um jeito bem fácil de entender:
Paul comprou um apartamento, no começo dos anos 90, por 300.000 dólares financiado em 30 anos. Em 2006 o apartamento do Paul passou a valer 1,1 milhão de dólares. Aí, um banco perguntou pro Paul se ele não queria uma grana emprestada, algo como 800.000 dólares, dando seu apartamento como garantia. Ele aceitou o empréstimo, fez uma nova hipoteca e pegou os 800.000 dólares.
Com os 800.000 dólares. Paul, vendo que imóveis não paravam de valorizar, comprou 3 casas em construção dando como entrada algo como 400.000 dólares. A diferença, 400.000 dólares que Paul recebeu do banco, ele se comprometeu: comprou carro novo (alemão) pra ele, deu um carro (japonês) para cada filho e com o resto do dinheiro comprou tv de plasma de 63 polegadas, 43 notebooks, 1634 cuecas. Tudo financiado, tudo a crédito. A esposa do Paul, sentindo-se rica, sentou o dedo no cartão de crédito.
Em agosto de 2007 começaram a correr boatos que os preços dos imóveis estavam caindo. As casas que o Paul tinha dado entrada e estavam em construção caíram vertiginosamente de preço e não tinham mais liquidez... O negócio era refinanciar a própria casa, usar o dinheiro para comprar outras casas e revender com lucro. Fácil....parecia fácil.
Só que todo mundo teve a mesma idéia ao mesmo tempo. As taxas que o Paul pagava começaram a subir (as taxas eram pós fixadas) e o Paul percebeu que seu investimento em imóveis se transformara num desastre.
Milhões tiveram a mesma idéia do Paul. Tinha casa pra vender como nunca. Paul foi agüentando as prestações da sua casa refinanciada, mais as das 3 casas que ele comprou, como milhões de compatriotas, para revender, mais as prestações dos carros, as das cuecas, dos notebooks, da tv de plasma e do cartão de crédito. Aí as casas que o Paul comprou para revender ficaram prontas e ele tinha que pagar uma grande parcela.
Só que neste momento Paul achava que já teria revendido as 3 casas mas, ou não havia compradores ou os que havia só pagariam um preço muito menor que o Paul havia pago. Paul se danou. Começou a não pagar aos bancos as hipotecas da casa que ele morava e das 3 casas que ele havia comprado como investimento. Os bancos ficaram sem receber de milhões de especuladores iguais a Paul.
Paul optou pela sobrevivência da família e tentou renegociar com os bancos que não quiseram acordo. Paul entregou aos bancos as 3 casas que comprou como investimento perdendo tudo que tinha investido. Paul quebrou. Ele e sua família pararam de consumir...
Milhões de Pauls deixaram de pagar aos bancos os empréstimos que haviam feito baseado nos preços dos imóveis. Os bancos haviam transformado os empréstimos de milhões de Pauls em títulos negociáveis. Esses títulos passaram a ser negociados com valor de face. Com a inadimplência dos Pauls esses títulos começaram a valer pó.
Bilhões e bilhões em títulos passaram a nada valer e esses títulos estavam disseminados por todo o mercado, principalmente nos bancos americanos, mas também em bancos europeus e asiáticos.
Os imóveis eram as garantias dos empréstimos, mas esses empréstimos foram feitos baseados num preço de mercado desse imóvel... Preço que despencou.
Um empréstimo foi feito baseado num imóvel avaliado em 500.000 dólares e de repente passou a valer 300.000 dólares e mesmo pelos 300.000 não havia compradores.
Os preços dos imóveis eram uma bolha, um ciclo que não se sustentava, como os esquemas de pirâmide, especulação pura. A inadimplência dos milhões dePauls atingiu fortemente os bancos americanos que perderam centenas de bilhões de dólares. A farra do crédito fácil um dia acaba. Acabou.
Com a inadimplência dos milhões de Pauls, os bancos pararam de emprestar por medo de não receber. Os Pauls pararam de consumir porque não tinham crédito. Mesmo quem não devia dinheiro não conseguia crédito nos bancos e quem tinha crédito não queria dinheiro emprestado.
O medo de perder o emprego fez a economia travar. Recessão é sentimento, é medo. Mesmo quem pode, pára de consumir.
O FED começou a trabalhar de forma árdua, reduzindo fortemente as taxas de juros e as taxas de empréstimo interbancários. O FED também começou a injetar bilhões de dólares no mercado, provendo liquidez. O governo Bush lançou um plano de ajuda à economia sob forma de devolução de parte do imposto de renda pago, visando incrementar o consumo porém essas ações levam meses para surtir efeitos práticos. Essas ações foram corretas e, até agora não é possível afirmar que os EUA estão tecnicamente em recessão.
O FED trabalhava. O mercado ficava atento e as famílias esperançosas. Até que na semana passada o impensável aconteceu. O pior pesadelo para uma economia aconteceu: a crise bancária, correntistas correndo para sacar suas economias, boataria geral, pânico. Um dos grandes bancos da América, o Bear Stearns, amanheceu, na segunda feira última, quebrado, insolvente.
No domingo o FED, de forma inédita, fez um empréstimo ao Bear, apoiado pelo JP Morgan Chase, para que o banco não quebrasse. Depois disso o Bear foi vendido para o JP Morgan por 2 dólares por ação. Há um ano elas valiam 160 dólares. Durante esta semana dezenas de boatos voltaram a acontecer sobre quebra de bancos. A bola da vez seria o Lehman Brothers, um bancão.
O mercado e as pessoas seguem sem saber o que nos espera na próxima segunda-feira. O que começou com o Paul hoje afeta o mundo inteiro. A coisa pode estar apenas começando. Só o tempo dirá.
E dia 15 de Setembro/2008, o Lehman Brothers pediu falencia, desempregando mais de 26 mil pessoas e provocando uma queda de mais de 500 (quinhentos) pontos no Indice Dow Jones, que mede o valor ponderado das acoes das 30 maiores empresas negociadas na Bolsa de Valores de New York - a maior queda em um unico dia, desde a quebra de 1929 ...
Este dia, certamente, será lembrado para sempre na historia do capitalismo.
(Carol H - Comunicação UFPR)
terça-feira, 14 de outubro de 2008
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
ONU defende intervenção para conter 'crise do século'
Se privatizam os lucros e se estatizam os prjuízos: resultado, o povo paga a irresponsabilidade, corrupção e especulação dos bancos...os bancos ganham dinheiro de seus clientes, das bolsas de valores e ainda...do Estado!!
Se alguém ainda consegue defender essa lógica (burra, ilusória e opressora, na minha opinião) do livre mercado...que se atreva a explicar essa linda crise!!
Segue algumas coisas do que diz o documento da ONU:
Um documento divulgado nesta terça-feira pela Unctad, a agência da ONU para comércio e desenvolvimento, defende a intervenção estatal para evitar danos maiores ao sistema financeiro e à economia real.
A agência chama a atual crise financeira global de "crise do século" e diz que a ameaça de "derretimento" da economia trouxe os governos de volta ao centro das atenções.
"Governos e bancos centrais são os únicos atores capazes de estabilizar os mercados em tempos em que a confiança se perdeu e outros atores estão tentando cortar gastos ou sanar seus balanços a qualquer preço para evitar ir à falência", afirma o documento.
Na avaliação da Unctad, apesar de a "socialização das perdas" associada à megaoperação de resgate proposta pelo governo americano ter atraído muitas críticas, não restava outra opção aos Estados Unidos.
"Diante dos riscos para a estabilidade financeira e a economia doméstica, o governo não tinha escolha a não ser dar segurança para algumas das maiores instituições ameaçadas", diz o documento. (Isso significa: o governo tem que dar segurança PARA AS INSTITUIÇOES...não para sua poplação...)
A análise da Unctad afirma que esta não é a hora para "lutas ideológicas", mas sim para "soluções pragmáticas". (Como não falar em luta ideológica se o que está nos olhos de todos é a completa crise - quem sabe ruptura! - da IDEOLOGIA liberal???)
Se alguém ainda consegue defender essa lógica (burra, ilusória e opressora, na minha opinião) do livre mercado...que se atreva a explicar essa linda crise!!
Segue algumas coisas do que diz o documento da ONU:
Um documento divulgado nesta terça-feira pela Unctad, a agência da ONU para comércio e desenvolvimento, defende a intervenção estatal para evitar danos maiores ao sistema financeiro e à economia real.
A agência chama a atual crise financeira global de "crise do século" e diz que a ameaça de "derretimento" da economia trouxe os governos de volta ao centro das atenções.
"Governos e bancos centrais são os únicos atores capazes de estabilizar os mercados em tempos em que a confiança se perdeu e outros atores estão tentando cortar gastos ou sanar seus balanços a qualquer preço para evitar ir à falência", afirma o documento.
Na avaliação da Unctad, apesar de a "socialização das perdas" associada à megaoperação de resgate proposta pelo governo americano ter atraído muitas críticas, não restava outra opção aos Estados Unidos.
"Diante dos riscos para a estabilidade financeira e a economia doméstica, o governo não tinha escolha a não ser dar segurança para algumas das maiores instituições ameaçadas", diz o documento. (Isso significa: o governo tem que dar segurança PARA AS INSTITUIÇOES...não para sua poplação...)
A análise da Unctad afirma que esta não é a hora para "lutas ideológicas", mas sim para "soluções pragmáticas". (Como não falar em luta ideológica se o que está nos olhos de todos é a completa crise - quem sabe ruptura! - da IDEOLOGIA liberal???)
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Big Smile and Big Stick, ou Sobre Sorrisos e Porretes
''In God we trust, the rest pay cash''
Theodore Roosevelt, um dos patriarcas do colonialismo moderno, sintetizou sua peculiar interpretação e descarada aplicação da Doutrina Monroe no conhecido “big smile and big stick”: abra um largo sorriso, mas carregue sempre consigo um bom porrete.
Nem todos os sorrisos, nem todos os porretes, nem todos os políticos são iguais. É verdade que a diferença, sobretudo em se tratando de presidentes estadunidenses, concerne sobretudo ao tamanho e a quantidade de dentões que exibem em seus risos estereotipados. Do democrata Clinton poder-se-ia dizer o mesmo que disseram de Richard Nixon: só um tolo compraria dele um carro usado. E aos que imaginam os democratas menos belicosos do que os republicanos, Truman oferece o fulminante desmentido de duas bombas atômicas responsáveis pelo mais mortífero massacre de todos os tempos. Clinton não matou tantos, mas foi mais sórdido: promoveu em dezembro de 1998 um bombardeio noturno de Bagdá, com o objetivo (sarcasticamente admitido pela mediática imperial) de distrair a opinião pública do processo de ''impeachment' ' que então lhe era movido porque mentira ao não reconhecer ter se prevalecido de sua condição de presidente para satisfazer canhestramente suas pulsões libidinosas.
Seria Barak Obama muito diferente? Uma larga experiência histórica mostra que preferir um candidato só porque ele é do partido democrata pode ter algum sentido no que concerne a certos temas sociais e culturais no interior dos Estados Unidos, mas não em relação às questões que afetam toda a humanidade: a guerra, a voracidade dos trustes, a hegemonia do dólar, o “fascismo exterior” etc. (Foi Maurice Duverger, um dos mais respeitados analistas políticos franceses de sua geração, que classificou de “fascismo exterior”, referindo-se aos Estados Unidos, “um sistema que desenvolve a liberdade em seu próprio país e a opressão nos outros”. É próprio aos impérios, com efeito, reconhecer a seus próprios cidadãos os direitos que nega aos povos periféricos). A demonstração mais recente: ao assumir a presidência do Congresso em 4 de janeiro de 2007, após a vitória do partido democrata nas eleições legislativas de novembro 2006, Nancy Pelosi suscitou muita expectativa de que começaria a pôr fim à ocupação militar do Iraque, com seu diuturno cortejo de massacres e outros horrores. Até agora, não fez nada: o horror continua, impávido.
Donde a dúvida: que conteúdo objetivo Obama pretende conferir, no trato dessas questões decisivas, à palavra “mudar”, chave de sua campanha? A tônica de suas declarações, por exemplo «a mudança é reconhecer que responder às ameaças de hoje não exige apenas o nosso poder de fogo mas também o poder da nossa diplomacia, uma diplomacia dura...» é enfatizar o fracasso das operações bélicas de G.W.Bush e preconizar uma maneira mais eficiente de «conduzir o mundo livre». Para os povos que são alvo da fúria do Pentágono, a proposta pode trazer certo alívio. Mas a vontade hegemônica permanece integral. Tanto assim que embora pareça mais prudente, numa campanha eleitoral, dirigir-se primeiro a seus próprios eleitores do que a um público estrangeiro, Obama optou por empreender uma viagem ao Médio Oriente e aos principais aliados europeus dos Estados Unidos, logo que venceu a disputa para a indicação do candidato democrata à presidência. Quis dar uma resposta prática a seu adversário, que o tinha criticado por pretender pôr fim à ocupação militar do Iraque num prazo de dezesseis meses, sem no entanto lá ter posto os pés desde janeiro de 2006. Contrariando as expectativas do « brain trust » de McCain, qui previa uma sequencia de gafes e tropeções diplomáticos, a viagem foi, para ele, um incontestável sucesso. A visita ao Iraque deu certo: o presidente-fantoche de plantão concordou com a retirada lenta e gradual, em dezesseis meses, dos mercenários do Pentágono. (Supondo claro que Obama seja mais conseqüente que seus colegas do Congresso). Pior seria o prosseguimento « sine die », preconizado por seu rival, da sangrenta ocupação colonial.
Entende-se que o candidato democrata tenha escolhido Berlim para expor, no dia 24 de julho, diante de uma concentração de massas que reuniu 200.000 admiradores ou curiosos, as grandes linhas de sua visão da política internacional. Foi com efeito na grande metrópole alemã que os Estados-Unidos obtiveram sua maior vitória política desde o fim da segunda guerra mundial. Para alívio da burguesia do mundo inteiro, a derrubada do muro exorcizou o espectro registrado na foto célebre que mostra soldados do glorioso Exército Vermelho desfraldando a também Vermelha Bandeira no topo do Reichstag, dia 8 de maio de 1945. Mas em vez de enfatizar, em seu festejado discurso, a supressão de uma barreira política, ele retomou a velha retórica da guerra fria, evocando o dia em que, “há sessenta anos”, “quando a sombra soviética se espalhava pela Europa do Leste”, “o primeiro avião americano aterrissou em Templehof” (aeroporto de Berlim ocidental). Os comunistas, prosseguiu, tinham bloqueado, em 24 de junho de 1948, todos os acessos à parte ocidental da cidade, «num esforço para suprimir a última flama de liberdade em Berlim». Última flama? A única liberdade que havia na Alemanha desde 1933, com a chegada de Hitler ao poder, resumia-se na inscrição que os nazistas colocavam na entrada dos campos de concentração: « Arbeit macht frei » (O trabalho liberta).
É verdade que no embalo do discurso, Obama condenou também os muros que separam os países « with the most » e os « with the least », bem como « as raças e as tribos», «os cristãos, os muçulmanos e os judeus», « os nacionais e os imigrantes». « Tais são os muros que agora devemos derrubar'', perorou. A idéia é excelente, mas por onde ele pretende começar a aplicá-la? Derrubando o muro que separa os Estados-Unidos do México ou aquele, ainda mais odioso, que o colonialismo facho-israelense construiu para dilacerar ainda mais a martirizada Palestina? Difícil para ele, porque o « muro americano », destinado a impedir os mexicanos e outros «latinos» de cruzar uma fronteira aberta somente para mercadoria e capitais, foi quase inteiramente construído por seu correligionário Clinton. Quanto ao muro israelense da vergonha, os sionistas não têm motivo para se inquietar. Obama, em 4 de junho, declarou-se favorável a que Jerusalém se torne a capital «não dividida» de Israel. Bush não tinha ousado ir tão longe.
Além das promessas ocas, que soam especialmente falso numa Europa empenhada em criminalizar os trabalhadores imigrantes por meio de leis celeradas, o discurso de Berlim não contribuiu nem um pouco para baixar as tensões suscitadas pela instalação de mísseis da OTAN em Praga. Contribuiu, antes para reforçar a demonização da União Soviética, na trilha da revisão da história empreendida por muitos intelectuais de direita alemães, que justificam Hitler com a descarada alegação de que Stalin pretendia invadir a Alemanha em 1941 e, por conseguinte, a invasão nazista do país dos soviets apenas se antecipou ao ataque comunista.
Poderíamos mencionar muitas outras tomadas de posição do candidato democrata sobre política externa que se inscrevem numa linha de continuidade com o “big smile and big stick” e com o sistema de alianças internacionais do imperialismo hegemônico. Mas ver a identidade sem ver a diferença é ser incapaz de analisar concretamente uma situação concreta. Fórmulas do gênero “é tudo farinha do mesmo saco” podem agradar a uma platéia predisposta a não ver a diferença. No mais das vezes, porém, reduzem-se à constatação de que à noite todas as vacas são pardas. Não é Obama e sim John McCain que exprime o mais empedernido militarismo e a mais mortífera arrogância hegemônica estadunidense. É ele e não McCain que pretende limitar as intervenções bélicas dos USA e que pode marcar uma nítida diferença em relação a oito anos de um governo cujo programa social consistiu em reduzir os impostos pagos pelos milionários. Essa diferença pode se tornar ainda mais sensível com o desencadeamento da previsível catástrofe financeira. O candidato democrata pode gerir a descomunal massa falida de Wall Street de um modo menos oneroso para o povo estadunidense. O qual, convenhamos, ao eleger e reeleger G.W.Bush colocou a corda no próprio pescoço. Logo veremos se o “americano médio” tirou disso alguma lição útil.
(João Quartim de Moraes)
Theodore Roosevelt, um dos patriarcas do colonialismo moderno, sintetizou sua peculiar interpretação e descarada aplicação da Doutrina Monroe no conhecido “big smile and big stick”: abra um largo sorriso, mas carregue sempre consigo um bom porrete.
Nem todos os sorrisos, nem todos os porretes, nem todos os políticos são iguais. É verdade que a diferença, sobretudo em se tratando de presidentes estadunidenses, concerne sobretudo ao tamanho e a quantidade de dentões que exibem em seus risos estereotipados. Do democrata Clinton poder-se-ia dizer o mesmo que disseram de Richard Nixon: só um tolo compraria dele um carro usado. E aos que imaginam os democratas menos belicosos do que os republicanos, Truman oferece o fulminante desmentido de duas bombas atômicas responsáveis pelo mais mortífero massacre de todos os tempos. Clinton não matou tantos, mas foi mais sórdido: promoveu em dezembro de 1998 um bombardeio noturno de Bagdá, com o objetivo (sarcasticamente admitido pela mediática imperial) de distrair a opinião pública do processo de ''impeachment' ' que então lhe era movido porque mentira ao não reconhecer ter se prevalecido de sua condição de presidente para satisfazer canhestramente suas pulsões libidinosas.
Seria Barak Obama muito diferente? Uma larga experiência histórica mostra que preferir um candidato só porque ele é do partido democrata pode ter algum sentido no que concerne a certos temas sociais e culturais no interior dos Estados Unidos, mas não em relação às questões que afetam toda a humanidade: a guerra, a voracidade dos trustes, a hegemonia do dólar, o “fascismo exterior” etc. (Foi Maurice Duverger, um dos mais respeitados analistas políticos franceses de sua geração, que classificou de “fascismo exterior”, referindo-se aos Estados Unidos, “um sistema que desenvolve a liberdade em seu próprio país e a opressão nos outros”. É próprio aos impérios, com efeito, reconhecer a seus próprios cidadãos os direitos que nega aos povos periféricos). A demonstração mais recente: ao assumir a presidência do Congresso em 4 de janeiro de 2007, após a vitória do partido democrata nas eleições legislativas de novembro 2006, Nancy Pelosi suscitou muita expectativa de que começaria a pôr fim à ocupação militar do Iraque, com seu diuturno cortejo de massacres e outros horrores. Até agora, não fez nada: o horror continua, impávido.
Donde a dúvida: que conteúdo objetivo Obama pretende conferir, no trato dessas questões decisivas, à palavra “mudar”, chave de sua campanha? A tônica de suas declarações, por exemplo «a mudança é reconhecer que responder às ameaças de hoje não exige apenas o nosso poder de fogo mas também o poder da nossa diplomacia, uma diplomacia dura...» é enfatizar o fracasso das operações bélicas de G.W.Bush e preconizar uma maneira mais eficiente de «conduzir o mundo livre». Para os povos que são alvo da fúria do Pentágono, a proposta pode trazer certo alívio. Mas a vontade hegemônica permanece integral. Tanto assim que embora pareça mais prudente, numa campanha eleitoral, dirigir-se primeiro a seus próprios eleitores do que a um público estrangeiro, Obama optou por empreender uma viagem ao Médio Oriente e aos principais aliados europeus dos Estados Unidos, logo que venceu a disputa para a indicação do candidato democrata à presidência. Quis dar uma resposta prática a seu adversário, que o tinha criticado por pretender pôr fim à ocupação militar do Iraque num prazo de dezesseis meses, sem no entanto lá ter posto os pés desde janeiro de 2006. Contrariando as expectativas do « brain trust » de McCain, qui previa uma sequencia de gafes e tropeções diplomáticos, a viagem foi, para ele, um incontestável sucesso. A visita ao Iraque deu certo: o presidente-fantoche de plantão concordou com a retirada lenta e gradual, em dezesseis meses, dos mercenários do Pentágono. (Supondo claro que Obama seja mais conseqüente que seus colegas do Congresso). Pior seria o prosseguimento « sine die », preconizado por seu rival, da sangrenta ocupação colonial.
Entende-se que o candidato democrata tenha escolhido Berlim para expor, no dia 24 de julho, diante de uma concentração de massas que reuniu 200.000 admiradores ou curiosos, as grandes linhas de sua visão da política internacional. Foi com efeito na grande metrópole alemã que os Estados-Unidos obtiveram sua maior vitória política desde o fim da segunda guerra mundial. Para alívio da burguesia do mundo inteiro, a derrubada do muro exorcizou o espectro registrado na foto célebre que mostra soldados do glorioso Exército Vermelho desfraldando a também Vermelha Bandeira no topo do Reichstag, dia 8 de maio de 1945. Mas em vez de enfatizar, em seu festejado discurso, a supressão de uma barreira política, ele retomou a velha retórica da guerra fria, evocando o dia em que, “há sessenta anos”, “quando a sombra soviética se espalhava pela Europa do Leste”, “o primeiro avião americano aterrissou em Templehof” (aeroporto de Berlim ocidental). Os comunistas, prosseguiu, tinham bloqueado, em 24 de junho de 1948, todos os acessos à parte ocidental da cidade, «num esforço para suprimir a última flama de liberdade em Berlim». Última flama? A única liberdade que havia na Alemanha desde 1933, com a chegada de Hitler ao poder, resumia-se na inscrição que os nazistas colocavam na entrada dos campos de concentração: « Arbeit macht frei » (O trabalho liberta).
É verdade que no embalo do discurso, Obama condenou também os muros que separam os países « with the most » e os « with the least », bem como « as raças e as tribos», «os cristãos, os muçulmanos e os judeus», « os nacionais e os imigrantes». « Tais são os muros que agora devemos derrubar'', perorou. A idéia é excelente, mas por onde ele pretende começar a aplicá-la? Derrubando o muro que separa os Estados-Unidos do México ou aquele, ainda mais odioso, que o colonialismo facho-israelense construiu para dilacerar ainda mais a martirizada Palestina? Difícil para ele, porque o « muro americano », destinado a impedir os mexicanos e outros «latinos» de cruzar uma fronteira aberta somente para mercadoria e capitais, foi quase inteiramente construído por seu correligionário Clinton. Quanto ao muro israelense da vergonha, os sionistas não têm motivo para se inquietar. Obama, em 4 de junho, declarou-se favorável a que Jerusalém se torne a capital «não dividida» de Israel. Bush não tinha ousado ir tão longe.
Além das promessas ocas, que soam especialmente falso numa Europa empenhada em criminalizar os trabalhadores imigrantes por meio de leis celeradas, o discurso de Berlim não contribuiu nem um pouco para baixar as tensões suscitadas pela instalação de mísseis da OTAN em Praga. Contribuiu, antes para reforçar a demonização da União Soviética, na trilha da revisão da história empreendida por muitos intelectuais de direita alemães, que justificam Hitler com a descarada alegação de que Stalin pretendia invadir a Alemanha em 1941 e, por conseguinte, a invasão nazista do país dos soviets apenas se antecipou ao ataque comunista.
Poderíamos mencionar muitas outras tomadas de posição do candidato democrata sobre política externa que se inscrevem numa linha de continuidade com o “big smile and big stick” e com o sistema de alianças internacionais do imperialismo hegemônico. Mas ver a identidade sem ver a diferença é ser incapaz de analisar concretamente uma situação concreta. Fórmulas do gênero “é tudo farinha do mesmo saco” podem agradar a uma platéia predisposta a não ver a diferença. No mais das vezes, porém, reduzem-se à constatação de que à noite todas as vacas são pardas. Não é Obama e sim John McCain que exprime o mais empedernido militarismo e a mais mortífera arrogância hegemônica estadunidense. É ele e não McCain que pretende limitar as intervenções bélicas dos USA e que pode marcar uma nítida diferença em relação a oito anos de um governo cujo programa social consistiu em reduzir os impostos pagos pelos milionários. Essa diferença pode se tornar ainda mais sensível com o desencadeamento da previsível catástrofe financeira. O candidato democrata pode gerir a descomunal massa falida de Wall Street de um modo menos oneroso para o povo estadunidense. O qual, convenhamos, ao eleger e reeleger G.W.Bush colocou a corda no próprio pescoço. Logo veremos se o “americano médio” tirou disso alguma lição útil.
(João Quartim de Moraes)
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