quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Diogo Mainardi tem uma criação de antas. Uma delas é Lula!

Por Célio Martins*
Em seu novo livro, que já nasce velho – não passa de um amontoado de péssimos textos que ele publicou na revista Veja –, o colunista metido a jornalista mostra estar bem acompanhado. Só não se sabe qual é a anta macho e qual é a fêmea, se Lula ou Diogo. Um caso de restrição do léxico.

O coletivo de antas de Mainardi aumenta de forma surrealista. Há até professor doutor em Lingüística apaixonado pelo que o papagaio dos reacionários fala e escreve. E muitos jornalistas. São espelhos do "Eremildo, o idiota", do Elio Gaspari. Acreditam que anta tem algo de antológico.

Ao publicar Lula é Minha Anta, Mainardi mostra que Lula é uma anta do Planalto e ele (Diogo), uma anta no fim da picada. E sem pasto. Pior: o fim da picada é ter gente que classifica como literatura as crônicas de Mainardi. Consideração certamente constrangedora para os leitores de Luis Fernando Verissimo e Carlos Heitor Cony.

Em política, o neoliberal retrógrado colunista da Veja é uma anta ao quadrado. Uma besta, mãe das antas; daquelas que pensam que o Brasil deve ser para sempre a colônia de algum império. Por que ler Diogo Mainardi se há tantos bons livros?
*Célio Martins é jornalista (e por incrível que pareça, este texto foi publicado na Gazeta do Povo/PR!)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Desocupação MANU MILITARI reivindicada pelo reitor da UFBa: uma ameaça a todas as Universidades Públicas

Por Roberto Leher*
Em um contexto muito distinto, pois as proporções da ocupação estudantil eram incomensuravelmente maiores, Albert Einstein ligou para seu amigo, Max Born, igualmente um grande físico, Nobel de 1954, para expressar sua preocupação com o fato de que um grupo de estudantes revolucionários tinha ocupado a Universidade de Berlim, por ocasião do final da I Guerra Mundial, e prendido o reitor e alguns professores. Mesmo estando os estudantes armados – o confronto militar ainda não havia cessado inteiramente – Einstein não hesitou em se dirigir à universidade para dialogar com os jovens. Por sua respeitabilidade como professor e cientista, ele pôde entrar na universidade ocupada, defender o valor da liberdade acadêmica e, a seguir, intermediar as negociações com o presidente recém eleito, Friedrich Ebert, solucionando o conflito sem repressão e arrogância.
Quase 90 anos após este episódio, por ordem do reitor da UFBa, na data comemorativa da proclamação da "República" , ao raiar do dia, a Polícia Federal invadiu a Reitoria ocupada por estudantes há 46 dias, usando da força, levando estudantes de camburão para a Polícia Federal e despejando seus utensílios como se fossem lixo. Considerando o contraste com a postura de Einstein, não surpreenderá se o reitor abrir um processo interno para jubiliar os jovens que estavam ocupando um espaço público para reivindicar o debate democrático sobre um projeto de reestruturação da universidade. Por imposição do MEC e aquiescência do reitor com o ato heterônomo do governo, o referido projeto foi votado a toque de caixa, sem real discussão com a comunidade acadêmica, via-de-regra em sessões que violaram os valores acadêmicos mais estruturantes da instituição universitária, como o esclarecimento, o diálogo entre os pontos de vista divergentes e a publicidade dos atos nos colegiados universitários.
Tive o privilégio de ter sido convidado para uma conversa informal com os estudantes na ocupação, quatro dias antes da repressão Federal, por ocasião do III Encontro de Educação e Marxismo, realizado na UFBa, no qual faria uma fala no dia seguinte. Em pleno domingo, e ao mesmo tempo em que a duas quadras estava sendo realizado um show conjunto Titãs - Paralamas do Sucesso, cerca de 70 jovens optaram por discutir questões mais profundas da universidade: a sua função social, a autonomia universitária, as consequências da mercantilizaçã o e da conversão das universidades federais brasileiras em organizações de ensino terciárias, nos termos bancomundialistas e do projeto Universidade Nova/REUNI.
A abertura da conversa foi a partir de um criativo ato teatral inspirado no teatro do oprimido. A prosa teve como eixo a relevância das lutas estudantis de Córdoba – realizadas no mesmo ano em que Einstein corajosamente defendeu o ethos acadêmico sobre a força policial-militar (1918) – para a reforma das universidades latino-americanas, contra o dogmatismo das oligarquias, das igrejas, dos catedráticos avessos à pesquisa e à docência e em defesa da liberdade de cátedra, da indissociabilidade entre o ensino e a pesquisa, do governo compartilhado, do livre acesso dos jovens à universidade e do compromisso das universidades com os grandes problemas dos povos.
A despeito da existência de pontos de vista distintos, o ambiente na ocupação era radicalmente democrático, respeitoso com a divergência, construtivo no pensar e fazer alternativas à "velha universidade" subordinada à razão instrumental de um capitalismo dependente. Ao lado dos painéis de azulejo, um precioso patrimônio, o alerta de que nada deveria ser colado em cima dos mesmos, pois as instalações da universidade são públicas. Há muito tempo não pude estar em um ambiente em que os valores universitários fossem tão vivos e genuinos. Saí da conversa otimista quanto ao futuro da universidade pública, pois minha convicção de que somente teremos uma reforma radical das universidades públicas com o forte protagonismo estudantil foi reforçada pelas extraordinárias contribuições daqueles estudantes.
Em nome do futuro da universidade podemos celebrar a figura de Einstein. O reitor da UFBA, por outro lado, juntar-se-á a uma seleta galeria de "reitores" que tentou impor os seus pontos de vista por meio da repressão, como foi o caso do ex-"reitor" da UFRJ José Henrique Vilhena, e de todos os que silenciaram coniventes diante do AI-5 e do Decreto 477.
A continuidade das retaliações contra os estudantes tem de ser vista como uma séria ameaça à concepção de universidade como um espaço de liberdade ilimitada em que é possível errar, sonhar e criar. Todos os que defendemos a liberdade acadêmica estaremos acompanhando com atenção os atos da administração para resguardar o direito a livre manifestação dos estudantes que, afinal, na áspera história da América Latina foi decisiva para forjar a universidade latino-americana!
*Roberto Leher é professor da UFRJ, membro da ANDES - Sindicato Nacional e da FEUFRJ.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Que Fazer?
Ferreira Gullar

Você que mora no alheio,
que anda de lotação,
que trabalha o dia inteiro
pra enriquecer o patrão
que ainda espera desse mundo de injustiça e exploração?

Você que paga aluguel,
que pagará toda a vida a casa que não é sua,
que pode a qualquer momento ser posto no olho da rua
que pode esperar da vida que deveria ser sua?

Que pode esperar da vida quem a compra à prestação?
Quem não tem outra saída:
ser escravo ou ser ladrão?
Que pode esperar da vida que a recebe vendida por seu pai ao seu patrão?

Pro patrão você trabalha dia e noite sem parar.
Você queima a sua vida pra ele a vida gozar.
Você gasta a sua vida pra dele se prolongar.
Você dá duro, padece,você se esgota, adoece,
e quando, enfim, envelhece o que é ruim vai piorar.

Só então você percebe que tempo você perdeu.
Você vê que sua vida foi dura mas não valeu.
Você passou a seu filho o mundo que recebeu:

O mundo injusto e sem brilho que, de fato, nem foi seu,
que não será do seu filho
se nele não se acendeu o sentimento profundo que traz o homem pra luta
luta que fará o mundo ser dele,
ser meu, ser teu.

Por isso meu companheiro,
que trabalha o dia inteiro pra enriquecer o patrão,
Te aponto um novo caminho para tua salvação,
a salvação de teu filho e o filho do teu irmão:
Te aponto o caminho novo da nossa revolução.

Então verás que tua vida ganha nova dimensão,
que em vez de triste e perdida terá força e direção.
E cada homem da rua
Verás como teu irmão
que, sabendo ou não sabendo,
procura a libertação.

Sentirás que o mar que bate na praia não bate em vão;
Que a flor que cresce noMeyer não cresce no Meyer em vão;
Que o passarinho que canta não canta pra teu patrão;
Que a grama verde que cresce empurra a revolução.

O mundo ganhou sentido,
teu braço ganhou função.
A revolução floresce na minha, na tua mão,
que nada há mais que adetenha
nem polícia nem bloqueionem bomba nem"Lacerdão"
que ela assobia no vento e marcha na multidão,
ilumina o firmamento, gira na constelação
porque já foi deflagrada no meu, no teu coração

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Privatizado!

Privatizaram sua vida,
seu trabalho,
sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário.
E agora não contentes querem privatizar o conhecimento,
a sabedoria, o pensamento,
que só à humanidade pertence.
(Bertold Brecht)

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Aos Que Vieram Depois de Nós

(Carta aberta aos universitários que estão reerguendo o movimento estudantil, livremente inspirada na poesia “Aos Que Virão Depois de Nós”, de Bertold Brecht).

Jovens companheiros, recebam o abraço de um náufrago da utopia de 1968, quando os melhores brasileiros, muitos deles tão novos como vocês, percorreram esses mesmos caminhos de idealismo e esperança, sem conseguirem levar a bom termo a jornada.

Eram tempos sem sol, em que só tinham testas sem rugas os indiferentes e só se davam ao luxo de rir aqueles que ainda não haviam recebido a terrível notícia.Num país de tão gritante desigualdade social, eu e meus amigos chegávamos a ser tidos como privilegiados. E, tanto quanto a vocês, os reacionários empedernidos e os eternos conformistas nos diziam: “Come e bebe! Fica feliz por teres o que tens!”.

Da mesma forma que vocês agora, um dia percebemos que nada do que fazíamos nos dava o direito de comer quando tínhamos fome. Por acaso, estávamos sendo poupados – ao preço de silenciarmos sobre tanta injustiça.

E cada um de nós se perguntou: “Como é que eu posso comer e beber, se a comida que eu como, eu tiro a quem tem fome? Se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede?”.

Escolhemos o caminho árduo dos que têm espírito solidário e senso de justiça.

Poderíamos, é claro, nos manter afastados dos problemas do mundo e sem medo passarmos o tempo que se tem para viver na terra. Mas, não conseguíamos agir assim. Viéramos para o convívio dos homens no tempo da revolta e nos revoltamos ao lado deles.

Foi uma luta desigual e trágica. Muitos daqueles com quem contávamos preferiram a “sabedoria” de seguir seu caminho sem violência, não satisfazendo seus melhores anseios, mas esquecendo-os. E se tornaram inacessíveis aos amigos que se encontravam necessitados.

No final, desesperados, trocávamos mais de refúgios do que de sapatos, pois só havia injustiça e não havia mais revolta.

Os que sobrevivemos, ainda amargamos a incompreensão dos que se puseram a falar sobre nossas fraquezas, sem pensarem nos tempos sem sol de que tiveram a sorte de escapar.

E assim transcorreram anos e décadas. Só nos restava confiar em que o ódio contra a vilania acabaria endurecendo novos rostos e que a cólera contra a injustiça um dia ainda faria outras vozes ficarem roucas.

A espera chegou ao fim. Saudamos esse movimento que vocês iniciaram e estão sustentando contra todas as incompreensões e calúnias, como o renascer da nossa utopia.

Nós, que tentamos e não conseguimos preparar o terreno para a amizade, temos agora a certeza de que a luta prosseguirá. E a esperança de que vocês vejam chegar o tempo em que o homem será, para sempre, amigo do homem.

* CELSO LUNGARETTI
jornalista, escritor e ex-preso político
lungaretti@uol.com.br