Chamado de uma ocupante da Josué de Castro
Meu nome é Ceça, sou moradora e coordenadora da ocupação Josué de Castro. Quero que todos saibam da nossa existência e por isso escrevo esse relato.
Na madrugada do dia 20/09/08 juntamente com mais de 80 famílias, invadi e ocupei um terreno abandonado situado na Av. Recife, em Recife/PE, pertencente à empresa de pneus Michelin. Pouco trazíamos, eram só paus, lonas e cordões. O pior é que grande parte do terreno era lama e mato. Só que isso não impediu que montássemos as nossas barracas. Na primeira semana que passamos fomos limpando o mato, retirando o lixo e restos de animais mortos que havia na área. Moramos em barracas durante várias semanas, Nesse interim fomos visitados pela polícia e outros que queriam nos retirar do local. Não saímos e assim foram passando os meses. Chuva, sol, frio ou calor não nos detiveram, continuamos na luta. Logo fomos nos organizando e substituindo as lonas por madeira. Cada um fez seu barraco de acordo com a sua possibilidade. O meu até hoje permanece de tábua. A cada dia que passava o terreno ia melhorando, pois cada um de nós foi aterrando sua área e organizados aterramos também a rua principal. Hoje mesmo no inverno, podemos transitar por toda a ocupação. Temos energia elétrica que nós mesmos puxamos dos postes em frente a ocupação. No início as gambiarras nos deram muito prejuízo. Por isso nos organizamos e compramos uma fiação adequada p/ a demanda do local.
Estamos um pouco mais organizados, mas isso só aconteceu por conta do convívio que temos com pessoas de vários setores da sociedades: APAP (Associação Pernanbucana de Anistiados Políticos), NAJUP (Núcleo de Assessoria Jurídica Popular), FAP (Fórum de Ações Populares), Autonomia (Grupo de Educação Popular), MSEU (Movimentos Sociais e Espaço Urbano - grupo de voluntários da pós-graduação em Geografia da UFPE). Dentre outros. Nosso primeiro contato aconteceu após o 1° protesto que fizemos na Avenida, por conta da 1ª ordem de despejo que recebemos. Alguns universitários, e seus colegas viram o nosso desempenho que foi divulgado na mídia, e como havia saído nessa ocasião um aumento abusivo das passagens (ocorrido no mês de fevereiro de 2009) dos transportes coletivos, decidiram nos procurar p/ juntarmos força p/ realizarmos um novo protesto. Almejávamos parar toda a cidade. Infelizmente não ocorreu com essas dimensões, mas serviu e muito para o nosso crescimento pessoal e coletivo.
A partir daí, várias vezes nos reunimos e os grupos, cada um na sua área de atuação começaram a realizar oficinas e palestras com a comunidades. Por diversas vezes participamos de debates e palestras em diversos locais, o que nos trouxe mais e mais pessoas interessadas em nossa causa. No atual momento estamos enfrentando a 4ª ordem de despejo e como não costumamos nos conformar com a realidade que o Governo quer nos impor, continuamos a fazer contato com vários órgãos.
Daí o motivo desse relato. Chamo você que leu nossa história para engrossar o cordão e fazer parte dessa luta. A Josué de Castro quando acorda a cidade com seu fogo, apito e grito de guerra, não toma a avenida apenas por moradia, nossa luta é por uma vida mais digna; moradia, escola, transporte, lazer, cultura, etc.
Essa luta também é sua!!
Maria da Conceição
Email: solidariedadejosue @ riseup.net
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Nem as crianças eles não querem deixar no Haiti.
Uma linda ação, levar uma criança negra e pobre do Haiti para ser criada nos Estados Unidos.
O que há de errado com isso?
Em primeiro lugar, a completa ilegalidade com que se deu o processo (bons samaritanos da igreja batista levando crianças sem documentação alguma via República Dominicana).
Em 2º lugar, a ilusão vendida nesse pacote. O Haiti é saqueado sistematicamente desde sua colonização, sofrendo um processo de ditadura seguida de liberalismo que acabaram o que é a 1ª. República independente negra do mundo! As potencias até hoje buscam provar que um país de negros, governados por negros e longe do imperialismo franco-britânico e estadunidense não pode funcionar!
A rebelião geral que fez com que o Haiti proclamasse sua independência e o fim da escravidão quase 50 anos antes de isso acontecer no Brasil fez com que o sangue das elites brancas de todo o continente gelasse. No Brasil colônia se falava do risco de um movimento nos moldes do Haiti.
O país, que oficialmente fala francês, hoje é um dos mais pobres e subjugados das Américas. As forças de “paz” da ONU, incluindo o Brasil (em busca de um assento no conselho de segurança), estão há mais de 5 anos no país e mal consiguiram conter os gravíssimos conflitos sociais e políticos do país, causados por grande êxodo rural, ausência do Estado e de políticas públicas (exterminadas na ditadura dos anos 70), além de grande confronto pela tomada do poder no país.
O terremoto foi só mais uma situação catastrófica em um país marcado pela repressão desde que sonhou existir. O fluxo de adoções de crianças de países como o Haiti para os Estados Unidos e Europa é gigantesco (até a Madonna queria um menino haitiano), no entanto, essas crianças, na maioria das vezes tem sim pais e quando não são compradas são seqüestradas...tudo pela força humanitária dos países ricos em compaixão pelos pobres.
Nem as crianças eles não querem deixar no Haiti...todo outro tipo de riqueza, minérios, arroz, bens naturais, eles já levaram...agora, é mais fácil tirar algumas crianças e deixar o país resolver sozinho os problemas que não criou do que pensar em, de fato, uma política internacional séria de subsídio à reconstrução e à reorganização social do país.
E que o Brasil não me venha querer emprestar fundos via FMI ao Haiti, o que não queremos para nós...damos aos outros agora???
O que há de errado com isso?
Em primeiro lugar, a completa ilegalidade com que se deu o processo (bons samaritanos da igreja batista levando crianças sem documentação alguma via República Dominicana).
Em 2º lugar, a ilusão vendida nesse pacote. O Haiti é saqueado sistematicamente desde sua colonização, sofrendo um processo de ditadura seguida de liberalismo que acabaram o que é a 1ª. República independente negra do mundo! As potencias até hoje buscam provar que um país de negros, governados por negros e longe do imperialismo franco-britânico e estadunidense não pode funcionar!
A rebelião geral que fez com que o Haiti proclamasse sua independência e o fim da escravidão quase 50 anos antes de isso acontecer no Brasil fez com que o sangue das elites brancas de todo o continente gelasse. No Brasil colônia se falava do risco de um movimento nos moldes do Haiti.
O país, que oficialmente fala francês, hoje é um dos mais pobres e subjugados das Américas. As forças de “paz” da ONU, incluindo o Brasil (em busca de um assento no conselho de segurança), estão há mais de 5 anos no país e mal consiguiram conter os gravíssimos conflitos sociais e políticos do país, causados por grande êxodo rural, ausência do Estado e de políticas públicas (exterminadas na ditadura dos anos 70), além de grande confronto pela tomada do poder no país.
O terremoto foi só mais uma situação catastrófica em um país marcado pela repressão desde que sonhou existir. O fluxo de adoções de crianças de países como o Haiti para os Estados Unidos e Europa é gigantesco (até a Madonna queria um menino haitiano), no entanto, essas crianças, na maioria das vezes tem sim pais e quando não são compradas são seqüestradas...tudo pela força humanitária dos países ricos em compaixão pelos pobres.
Nem as crianças eles não querem deixar no Haiti...todo outro tipo de riqueza, minérios, arroz, bens naturais, eles já levaram...agora, é mais fácil tirar algumas crianças e deixar o país resolver sozinho os problemas que não criou do que pensar em, de fato, uma política internacional séria de subsídio à reconstrução e à reorganização social do país.
E que o Brasil não me venha querer emprestar fundos via FMI ao Haiti, o que não queremos para nós...damos aos outros agora???
Haiti
Por incrível que pareça, esse texto foi publicado na Folha de S. Paulo em 18 de janeiro de 2010
OMAR RIBEIRO THOMAZ*
OTÁVIO CALEGARI JORGE**
O terremoto no Haiti, que afetou de forma particularmente arrasadora sua capital, foi há cerca de uma semana. O pouco de um Estado já frágil foi destruído, a missão das Nações Unidas foi incapaz de ir além de resgatar seus próprios mortos e feridos, a ajuda internacional tarda, e o que vemos são haitianos ajudando haitianos.
Entre quarta-feira e sábado, caminhar pelas ruas do centro de Porto Príncipe e de Pétionville era observar o civismo dos haitianos que, muitas vezes, e como nós, sem entender claramente o que havia acontecido, procuravam cuidar dos feridos, resgatar aqueles que ainda estavam vivos sob os escombros, e dispor de seus mortos. O que vimos foi, de um lado, solidariedade, de outro a ausência quase que total e absoluta das forças da ONU e da ajuda internacional.
Por quê? Afinal, a Minustah não estava no Haiti há cerca de seis anos e não dizia estar agindo no sentido de estabilizar o país e reconstruir o Estado haitiano? Quando nos perguntávamos do porquê da demora de disponibilizar comida e remédios já no aeroporto de Porto Príncipe para as centenas de milhares de pessoas que se aglomeravam nos campos de refugiados improvisados por todos os lados, a resposta era que não existiam canais locais capazes de serem mobilizados para a tarefa.
Homens e mulheres que tinham vindo para ajudar, e as coisas que traziam, se aglomeravam num aeroporto controlado por forças militares americanas, como se de uma operação de guerra se tratasse.
Após seis anos no Haiti, aqueles que diziam que estavam ali para reconstruir o país, não tinham entendido nada, ou muito pouca coisa. Quando fomos às praças e campos de futebol transformados em campos de refugiados, eram as "dame sara", mulheres que controlam as redes comerciais existentes no país, que garantiam o acesso dos haitianos a produtos; eram aquelas que cozinham na rua, "chein jambe", que ofereciam galinha, espaguete, arroz, feijão e verduras aos haitianos e haitianas aglomerados; eram caminhões pertencentes a empresários locais que distribuíam água potável. Haitianos ajudando haitianos.
Por que não aproveitar esta energia e estas redes existentes para fazer chegar a ajuda? Por desconhecimento, talvez, ou talvez por duvidar de sua eficácia, ou da possibilidade de uma vítima ser mais do que uma vítima passiva à espera de ajuda.
O desconhecimento, no entanto, é duvidável. Em nossa visita ao batalhão brasileiro da Minustah, horas antes do terremoto, pudemos ver na apresentação do coronel João Bernardes um extremo conhecimento do funcionamento da sociedade haitiana.
Infelizmente, a falta de ajuda parece estar mais ligada às disputas internacionais pelo controle do futuro do povo haitiano do que à emergência da situação.
Sim, os haitianos são vítimas, mas estão longe da passividade: pra cima e pra baixo, entre as "dame sara" e o "chein jambe", vimos jovens escoteiros removendo entulho, jovens pedido ajuda com alto-falantes, médicos haitianos dando atendimento aos feridos nas ruas, freira haitianas prestando os primeiros socorros quando possível. Paralelamente, o aparato da Minustah, cerca de 5.500 militares de diferentes nacionalidades, ou estava parado, ou mobilizado na atenção dos próprios quadros da ONU.
Os haitianos ajudam haitianos, a ONU ajuda a ONU.
Duas reações foram recorrentes nos dias que se seguiram aos terremotos. Uma, talvez a mais primária, era a de responsabilizar a natureza. A outra, a de responsabilizar os próprios haitianos pelo caos que sucedeu ao cataclismo. Afinal, foram incapazes de construir um Estado e, por isso, são incapazes de reagir.
Ambas as reações são perversas. Não estamos só diante de um cataclismo natural, mas também de uma catástrofe social. E o desmantelamento do Estado haitiano não é responsabilidade exclusiva dos haitianos, muito pelo contrário. País com pouca margem de manobra no contexto caribenho ao longo das décadas de Guerra Fria, viu as grandes potências apoiarem uma ditadura regressiva e particularmente violenta; concomitantemente, e especialmente a partir do fim dos anos 1970 e ao longo dos anos 1980, o Haiti, como tantos outros países, foi vítima de profissionais engravatados que aplicavam a mesma receita em qualquer lugar: desregulamentaçã o, estado mínimo, livre comércio.
Foram as pressões do FMI e do Banco Mundial que obrigaram o Haiti a desproteger a produção de arroz no início dos anos 1980. O Haiti era, até então, autossuficiente em arroz.
Em pouco tempo não só se viu obrigado a importar este produto, como massas de camponeses foram expulsas do campo para a capital do país, aglomerando- se em habitações precárias, as mesmas que foram abaixo com o terremoto. Tal como ocorreu com o arroz, o cimento também foi afetado. Antes era produzido no país, e desde finais de 1980 foi importado dos EUA, o que obrigou os haitianos a fazerem uso de tijolos pobremente produzidos com areia. Tais tijolos são frágeis e acabam afetando a própria condição das construções. E podemos seguir adiante para demonstrar que o desmantelamento do Estado haitiano foi obra da "comunidade internacional".
Somente uma crítica sistemática ao próprio caráter da ajuda internacional nas últimas décadas poderá ajudar o Haiti a sair de um atoleiro que não foi construído apenas por ele. O que pudemos observar, além da passividade da própria comunidade internacional, capaz de mobilizar mundos e fundos, mas incapaz de conversar com as "dame sara" para imaginar uma saída criativa para a distribuição da ajuda, foi um movimento mais do que preocupante.
Milhares de soldados americanos ocupam, mais uma vez, o país, como se houvesse uma situação de guerra civil, e o Brasil, já imerso há seis anos em toda essa lama, entra no circo das potências que querem "ajudar" o Haiti.
Sem termos presente o fato de que o Haiti é um país soberano, e que os haitianos não são vítimas passivas de catástrofes naturais, dificilmente sairemos do circulo de pobreza e miséria criada pela própria "comunidade internacional", no qual o Brasil ocupa um trágico lugar central.
*OMAR RIBEIRO THOMAZ, 44, é professor de antropologia da Unicamp;
**OTÁVIO CALEGARI JORGE, 21, é estudante de ciências sociais na mesma universidade.
OMAR RIBEIRO THOMAZ*
OTÁVIO CALEGARI JORGE**
O terremoto no Haiti, que afetou de forma particularmente arrasadora sua capital, foi há cerca de uma semana. O pouco de um Estado já frágil foi destruído, a missão das Nações Unidas foi incapaz de ir além de resgatar seus próprios mortos e feridos, a ajuda internacional tarda, e o que vemos são haitianos ajudando haitianos.
Entre quarta-feira e sábado, caminhar pelas ruas do centro de Porto Príncipe e de Pétionville era observar o civismo dos haitianos que, muitas vezes, e como nós, sem entender claramente o que havia acontecido, procuravam cuidar dos feridos, resgatar aqueles que ainda estavam vivos sob os escombros, e dispor de seus mortos. O que vimos foi, de um lado, solidariedade, de outro a ausência quase que total e absoluta das forças da ONU e da ajuda internacional.
Por quê? Afinal, a Minustah não estava no Haiti há cerca de seis anos e não dizia estar agindo no sentido de estabilizar o país e reconstruir o Estado haitiano? Quando nos perguntávamos do porquê da demora de disponibilizar comida e remédios já no aeroporto de Porto Príncipe para as centenas de milhares de pessoas que se aglomeravam nos campos de refugiados improvisados por todos os lados, a resposta era que não existiam canais locais capazes de serem mobilizados para a tarefa.
Homens e mulheres que tinham vindo para ajudar, e as coisas que traziam, se aglomeravam num aeroporto controlado por forças militares americanas, como se de uma operação de guerra se tratasse.
Após seis anos no Haiti, aqueles que diziam que estavam ali para reconstruir o país, não tinham entendido nada, ou muito pouca coisa. Quando fomos às praças e campos de futebol transformados em campos de refugiados, eram as "dame sara", mulheres que controlam as redes comerciais existentes no país, que garantiam o acesso dos haitianos a produtos; eram aquelas que cozinham na rua, "chein jambe", que ofereciam galinha, espaguete, arroz, feijão e verduras aos haitianos e haitianas aglomerados; eram caminhões pertencentes a empresários locais que distribuíam água potável. Haitianos ajudando haitianos.
Por que não aproveitar esta energia e estas redes existentes para fazer chegar a ajuda? Por desconhecimento, talvez, ou talvez por duvidar de sua eficácia, ou da possibilidade de uma vítima ser mais do que uma vítima passiva à espera de ajuda.
O desconhecimento, no entanto, é duvidável. Em nossa visita ao batalhão brasileiro da Minustah, horas antes do terremoto, pudemos ver na apresentação do coronel João Bernardes um extremo conhecimento do funcionamento da sociedade haitiana.
Infelizmente, a falta de ajuda parece estar mais ligada às disputas internacionais pelo controle do futuro do povo haitiano do que à emergência da situação.
Sim, os haitianos são vítimas, mas estão longe da passividade: pra cima e pra baixo, entre as "dame sara" e o "chein jambe", vimos jovens escoteiros removendo entulho, jovens pedido ajuda com alto-falantes, médicos haitianos dando atendimento aos feridos nas ruas, freira haitianas prestando os primeiros socorros quando possível. Paralelamente, o aparato da Minustah, cerca de 5.500 militares de diferentes nacionalidades, ou estava parado, ou mobilizado na atenção dos próprios quadros da ONU.
Os haitianos ajudam haitianos, a ONU ajuda a ONU.
Duas reações foram recorrentes nos dias que se seguiram aos terremotos. Uma, talvez a mais primária, era a de responsabilizar a natureza. A outra, a de responsabilizar os próprios haitianos pelo caos que sucedeu ao cataclismo. Afinal, foram incapazes de construir um Estado e, por isso, são incapazes de reagir.
Ambas as reações são perversas. Não estamos só diante de um cataclismo natural, mas também de uma catástrofe social. E o desmantelamento do Estado haitiano não é responsabilidade exclusiva dos haitianos, muito pelo contrário. País com pouca margem de manobra no contexto caribenho ao longo das décadas de Guerra Fria, viu as grandes potências apoiarem uma ditadura regressiva e particularmente violenta; concomitantemente, e especialmente a partir do fim dos anos 1970 e ao longo dos anos 1980, o Haiti, como tantos outros países, foi vítima de profissionais engravatados que aplicavam a mesma receita em qualquer lugar: desregulamentaçã o, estado mínimo, livre comércio.
Foram as pressões do FMI e do Banco Mundial que obrigaram o Haiti a desproteger a produção de arroz no início dos anos 1980. O Haiti era, até então, autossuficiente em arroz.
Em pouco tempo não só se viu obrigado a importar este produto, como massas de camponeses foram expulsas do campo para a capital do país, aglomerando- se em habitações precárias, as mesmas que foram abaixo com o terremoto. Tal como ocorreu com o arroz, o cimento também foi afetado. Antes era produzido no país, e desde finais de 1980 foi importado dos EUA, o que obrigou os haitianos a fazerem uso de tijolos pobremente produzidos com areia. Tais tijolos são frágeis e acabam afetando a própria condição das construções. E podemos seguir adiante para demonstrar que o desmantelamento do Estado haitiano foi obra da "comunidade internacional".
Somente uma crítica sistemática ao próprio caráter da ajuda internacional nas últimas décadas poderá ajudar o Haiti a sair de um atoleiro que não foi construído apenas por ele. O que pudemos observar, além da passividade da própria comunidade internacional, capaz de mobilizar mundos e fundos, mas incapaz de conversar com as "dame sara" para imaginar uma saída criativa para a distribuição da ajuda, foi um movimento mais do que preocupante.
Milhares de soldados americanos ocupam, mais uma vez, o país, como se houvesse uma situação de guerra civil, e o Brasil, já imerso há seis anos em toda essa lama, entra no circo das potências que querem "ajudar" o Haiti.
Sem termos presente o fato de que o Haiti é um país soberano, e que os haitianos não são vítimas passivas de catástrofes naturais, dificilmente sairemos do circulo de pobreza e miséria criada pela própria "comunidade internacional", no qual o Brasil ocupa um trágico lugar central.
*OMAR RIBEIRO THOMAZ, 44, é professor de antropologia da Unicamp;
**OTÁVIO CALEGARI JORGE, 21, é estudante de ciências sociais na mesma universidade.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
COPENHAGEN 2009
The predictable failure
Michel Löwy
We - I mean the Marxists, the Ecosocialists, the radical climate justice activists - were quite pessimistic about the so-called United Nations Conference on Climate Change and had predicted that Copenhagen would end in a failure. We argued that the capitalist system doesn’t know any criteria other than more accumulation, greater expansion and higher profits, and therefore is unable to take the minimal measures necessary to prevent catastrophic climate change. And since we knew that the vast majority of the “world leaders” present in Copenhagen are nothing but faithfull servants of the capitalist’s interests, we thought that the Conference would limit itself to vague promises about a 50% reduction of CO2 emissions by 2050. In one word, we believed that the Copenhagen mountain would give birth to a mouse.
Well, I must admit that we were wrong. We were not pessimistic enough. The Copenhagen conference did not give birth to a mouse but to a cockroach. Kyoto was already a big failure, since its aims were ridiculously low - a reduction in 5% until 2012 - and the methods used, such as the “market of pollutions rights”, absolutely unable to achieve any significant progress. But Copenhagen is much, much less than Kyoto, which at least acknowledged the need for internationally agreed commitments.
What happened ? China accused the US of not commiting itself to any meaningful measures to reduce emissions; the US accused China of not accepting any international commitment to reduce emissions; and Europe explained that they couldn’t take any initiatives without the US and China. The only thing they all agreed, and happily so, is on the urgent need to do nothing.
So we have got only an ugly cockroach, called “The Agreement of Copenhagen”, concocted by the “world leaders” before hurriedly leaving the Conference by the back door. It is a completely void document saying that, as everybody knows, one should prevent temperature of raising beyond 2°C. Not a word about limitations of gas emissions, no percentages of reduction mentioned, not even as a wishful thinking, not even in a very far future. Nothing. Nihil. Zero content.
So, where is hope ? The only hope that exists is in the 100 thousand people that demonstrated in the streets of Copenhagen, coming from Danemark, Scandinavia, Germany, Europe and the whole world, asking for radical measures, denouncing the irresponsibility of the “responsible leaders”, claiming for climate justice, and proposing to “Change the system, not the climate”. Or, in the thousands who peacefully marched till the doors of the Conference, trying to open a dialogue with the “official” representatives, but were received by tear gas and police clubs, and saw their spokesmen – like Tadzo Müller - arrested for “incitation to violence”. Or in the thousands who took part in the discussions of the alternative KlimaForum, which adopted a resolution denouncing the pseudo-solutions of the system (“carbon trade”, etc). There is also hope in political leaders like the Bolivian President Evo Morales - among the very few exceptions - that showed solidarity with the Climate Justice movement, and denounced capitalism as the system responsible for disastrous global warming.
Conclusion: many years ago, the famous poet and singer Joe Hill, from the American International Workers of the World ( IWW) said, just before being shot by the authorities on fake accusations : “Don’t mourn, organize”. We must return to our countries, and organize people, in the fields, in the factories, in the schools, in the streets, to build a large international movement fighing against the system, to impose radical change, to save, not “the planet” - it is not in danger - but life on this planet from destruction.
*Michael Löwy é um pensador marxista brasileiro radicado na França, onde trabalha como diretor de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique. É um relevante estudioso do marxismo, com pesquisas sobre as obras de Karl Marx, Leon Trótski, Rosa Luxemburgo, Georg Lukács, Lucien Goldmann e Walter Benjamin.
Michel Löwy
We - I mean the Marxists, the Ecosocialists, the radical climate justice activists - were quite pessimistic about the so-called United Nations Conference on Climate Change and had predicted that Copenhagen would end in a failure. We argued that the capitalist system doesn’t know any criteria other than more accumulation, greater expansion and higher profits, and therefore is unable to take the minimal measures necessary to prevent catastrophic climate change. And since we knew that the vast majority of the “world leaders” present in Copenhagen are nothing but faithfull servants of the capitalist’s interests, we thought that the Conference would limit itself to vague promises about a 50% reduction of CO2 emissions by 2050. In one word, we believed that the Copenhagen mountain would give birth to a mouse.
Well, I must admit that we were wrong. We were not pessimistic enough. The Copenhagen conference did not give birth to a mouse but to a cockroach. Kyoto was already a big failure, since its aims were ridiculously low - a reduction in 5% until 2012 - and the methods used, such as the “market of pollutions rights”, absolutely unable to achieve any significant progress. But Copenhagen is much, much less than Kyoto, which at least acknowledged the need for internationally agreed commitments.
What happened ? China accused the US of not commiting itself to any meaningful measures to reduce emissions; the US accused China of not accepting any international commitment to reduce emissions; and Europe explained that they couldn’t take any initiatives without the US and China. The only thing they all agreed, and happily so, is on the urgent need to do nothing.
So we have got only an ugly cockroach, called “The Agreement of Copenhagen”, concocted by the “world leaders” before hurriedly leaving the Conference by the back door. It is a completely void document saying that, as everybody knows, one should prevent temperature of raising beyond 2°C. Not a word about limitations of gas emissions, no percentages of reduction mentioned, not even as a wishful thinking, not even in a very far future. Nothing. Nihil. Zero content.
So, where is hope ? The only hope that exists is in the 100 thousand people that demonstrated in the streets of Copenhagen, coming from Danemark, Scandinavia, Germany, Europe and the whole world, asking for radical measures, denouncing the irresponsibility of the “responsible leaders”, claiming for climate justice, and proposing to “Change the system, not the climate”. Or, in the thousands who peacefully marched till the doors of the Conference, trying to open a dialogue with the “official” representatives, but were received by tear gas and police clubs, and saw their spokesmen – like Tadzo Müller - arrested for “incitation to violence”. Or in the thousands who took part in the discussions of the alternative KlimaForum, which adopted a resolution denouncing the pseudo-solutions of the system (“carbon trade”, etc). There is also hope in political leaders like the Bolivian President Evo Morales - among the very few exceptions - that showed solidarity with the Climate Justice movement, and denounced capitalism as the system responsible for disastrous global warming.
Conclusion: many years ago, the famous poet and singer Joe Hill, from the American International Workers of the World ( IWW) said, just before being shot by the authorities on fake accusations : “Don’t mourn, organize”. We must return to our countries, and organize people, in the fields, in the factories, in the schools, in the streets, to build a large international movement fighing against the system, to impose radical change, to save, not “the planet” - it is not in danger - but life on this planet from destruction.
*Michael Löwy é um pensador marxista brasileiro radicado na França, onde trabalha como diretor de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique. É um relevante estudioso do marxismo, com pesquisas sobre as obras de Karl Marx, Leon Trótski, Rosa Luxemburgo, Georg Lukács, Lucien Goldmann e Walter Benjamin.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Bolsa Família e Social Democracia
França e Japão, dois países com um Estado de bem-estar social reconhecidamente bem sucedidos, são exemplos interessantes para pensar as críticas feitas a certas políticas – reformistas e limitadas – tomadas pelo governo Lula.
Na França o auxílio às famílias declaradas “pobres” inclui passagens ilimitadas de metrô gratuitas, pagamento do aluguel do imóvel onde a família mora e auxílio de 300 euros por mês para a alimentação. No mesmo sentido, no Japão não há limites de tempo para que uma pessoa receba seguro desemprego, portanto, na prática, é possível que uma pessoa trabalhe apenas 1 ano e passe outros 10 anos recebendo o mesmo salário, pago pelos cofres públicos.
O que isso nos faz pensar?
Em primeiro lugar que o nosso Bolsa Família é ainda um protótipo de política de garantia dos direitos de bem-estar social. Além disso, essa política, apesar de ter tirado 40 milhões de pessoas do patamar da miséria, não alterou em nada as bases econômicas do governo, que investiu cerca de 20 bilhões de reais no Bolsa Família em 2008, mas ao mesmo tempo “investiu” 200 bilhões (10x o valor do BF) em empréstimos do BNDES à empresas de grande porte e para grandes bancos, que pagarão esse empréstimo sem juros, em 20 anos.
Será que ainda podemos criticar o Bolsa Família? Sim, mas com a crítica consciente de que ainda é muito pouco! Se queremos um estado de bem estar social (bem reformista, nada de revolucionário) ainda estamos nos primeiros degraus a serem galgados em políticas públicas pelo nosso governo. No entanto, nossa classe média reacionária e mesquinha, sem falar nas classes mais altas (as mesmas que sempre sugaram o melhor dos proventos estatais), ainda tem a petulância de falar que o bolsa família é dinheiro demais investido nos pobres...
Na França o auxílio às famílias declaradas “pobres” inclui passagens ilimitadas de metrô gratuitas, pagamento do aluguel do imóvel onde a família mora e auxílio de 300 euros por mês para a alimentação. No mesmo sentido, no Japão não há limites de tempo para que uma pessoa receba seguro desemprego, portanto, na prática, é possível que uma pessoa trabalhe apenas 1 ano e passe outros 10 anos recebendo o mesmo salário, pago pelos cofres públicos.
O que isso nos faz pensar?
Em primeiro lugar que o nosso Bolsa Família é ainda um protótipo de política de garantia dos direitos de bem-estar social. Além disso, essa política, apesar de ter tirado 40 milhões de pessoas do patamar da miséria, não alterou em nada as bases econômicas do governo, que investiu cerca de 20 bilhões de reais no Bolsa Família em 2008, mas ao mesmo tempo “investiu” 200 bilhões (10x o valor do BF) em empréstimos do BNDES à empresas de grande porte e para grandes bancos, que pagarão esse empréstimo sem juros, em 20 anos.
Será que ainda podemos criticar o Bolsa Família? Sim, mas com a crítica consciente de que ainda é muito pouco! Se queremos um estado de bem estar social (bem reformista, nada de revolucionário) ainda estamos nos primeiros degraus a serem galgados em políticas públicas pelo nosso governo. No entanto, nossa classe média reacionária e mesquinha, sem falar nas classes mais altas (as mesmas que sempre sugaram o melhor dos proventos estatais), ainda tem a petulância de falar que o bolsa família é dinheiro demais investido nos pobres...
sábado, 14 de novembro de 2009
Ciência Política com Prêmio Nobel!
A CIÊNCIA POLÍTICA GANHA STATUS DE NOBEL DA ECONOMIA
A crise econômica mundial deixou seus teóricos, quase todos, “sem lenço e sem documento”, completamente perdidos por não saberem repensar as práticas de mercado fora da ortodoxia das escolas formais de economia e outros Centros de Referências que investiram no encantamento do mercado como ente absoluto das relações de poder. Com seus paradigmas em ruínas, os pilares da economia capitalista mundial centrado nos Estados Unidos da América balançaram o mundo, provocando marolas e tsunamis, o pior de tudo, foi o descrédito das instituições financeiras internacionais. Com isso, a ciência política ganha status e passa a ser reconhecida com o prêmio Nobel de Economia nos feitos da professora norte-americana Elinor Ostrom, da Universidade de Indiana.
A vencedora do prêmio Nobel de Economia, Elinor Ostrom tem 76 anos, é professora de ciência política e co-diretora do escritório de teoria política e análise da Universidade de Indiana, bem como diretora da Fundação do Centro de Estudo da Diversidade Institucional da Universidade do Estado do Arizona. O prêmio Nobel de 2009 foi compartilhado com o economista Oliver E. Williamson, da Universidade da Califórnia, em Berkeley.
Noticiário da agência France Press informa que a professora norte-americana Linor Ostrom, disse que seu reconhecimento resulta da necessidade dos cidadãos se envolverem cada vez mais nos esforços para preservação dos recursos naturais.
A professora de Ciência Política disse que seu trabalho tem como foco desenvolver novas formas de gestão dos recursos naturais por comunidades de todo o mundo. "Estive estudando como as pessoas comuns e os funcionários públicos tentam solucionar problemas muito difíceis" - como o desmatamento, gestão das águas e a perda dos recursos pesqueiros, entre outros, disse Ostrom.
Penso também, que "quando os indivíduos têm esta forma de trabalhar juntos, pode construir confiança e respeito e podem ser capazes de solucionar problemas comuns”, explica.
Para a professora Elinor Ostrom, do campo da ciência política, "um funcionário que tenha PHD não significa necessariamente que ele saiba mais que as pessoas que vivem de um recurso. (...) Há muito conhecimento local que temos que respeitar".
O Comitê Nobel declarou que o trabalho de Ostrom desafia a crença popular de que uma propriedade comum mal administrada deve ser regulada pelo Estado ou privatizada. Demonstra em seus estudos de governança, que as comunidades detentoras do conhecimento local e gestoras de formas de trabalho social são capazes de construir práticas de gestão baseadas na participação, confiança e respeito para juntos solucionar os problemas enfrentados.
O prêmio deste ano, no caso de Elinor Ostrom, acompanha a onda global de preocupações com um planeta sustentável, afirma o jornalista brasileiro da área de economia José Paulo Kupfer. Para ele as pesquisas da professora Ostrom, relatadas em livro traduzido no Brasil este ano, no qual ela é uma das organizadoras Ecossistemas florestais, 544 páginas, editora SENAC São Paulo, concluem não haver regime de posse – privado, comum ou governamental – superior a outro quando se trata do bem-estar das florestas. “A evidência é que as regras de uso, associadas ao manejo dos recursos, independentemente do regime de propriedade, determinam as condições das florestas”.
No caso de Williamson, ao contrário. Segundo Kupfer, o júri do Nobel de Economia reafirma uma preferência por pesquisas sobre o funcionamento dos mercados, a partir de visões neoclássicas e/ou comportamentais. “Ainda sem obras traduzidas em português (não encontrei nada na pesquisa que fiz), o premiado de 2009 é pelo menos o terceiro, em cerca de década e meia, a dedicar-se, principalmente, a estudos no campo da chamada Economia Institucional. As ações das pessoas, enquanto agentes econômicos, limitadas pelo conjunto de regras e normas que definem a vida em sociedade são o foco das pesquisas de Williamson”, conclui.
A Academia Real Sueca deu a Ostrom metade do prêmio de 1,4 milhão de dólares, com a outra metade indo para Williamson. O Prêmio Nobel de Economia, oficialmente, é chamado de Prêmio Sveriges Riksbank em Ciências Econômicas e foi criado em 1968, em Memória de Alfred Nobel.
Fonte: http://colunistas.ig.com.br/jpkupfer
A crise econômica mundial deixou seus teóricos, quase todos, “sem lenço e sem documento”, completamente perdidos por não saberem repensar as práticas de mercado fora da ortodoxia das escolas formais de economia e outros Centros de Referências que investiram no encantamento do mercado como ente absoluto das relações de poder. Com seus paradigmas em ruínas, os pilares da economia capitalista mundial centrado nos Estados Unidos da América balançaram o mundo, provocando marolas e tsunamis, o pior de tudo, foi o descrédito das instituições financeiras internacionais. Com isso, a ciência política ganha status e passa a ser reconhecida com o prêmio Nobel de Economia nos feitos da professora norte-americana Elinor Ostrom, da Universidade de Indiana.
A vencedora do prêmio Nobel de Economia, Elinor Ostrom tem 76 anos, é professora de ciência política e co-diretora do escritório de teoria política e análise da Universidade de Indiana, bem como diretora da Fundação do Centro de Estudo da Diversidade Institucional da Universidade do Estado do Arizona. O prêmio Nobel de 2009 foi compartilhado com o economista Oliver E. Williamson, da Universidade da Califórnia, em Berkeley.
Noticiário da agência France Press informa que a professora norte-americana Linor Ostrom, disse que seu reconhecimento resulta da necessidade dos cidadãos se envolverem cada vez mais nos esforços para preservação dos recursos naturais.
A professora de Ciência Política disse que seu trabalho tem como foco desenvolver novas formas de gestão dos recursos naturais por comunidades de todo o mundo. "Estive estudando como as pessoas comuns e os funcionários públicos tentam solucionar problemas muito difíceis" - como o desmatamento, gestão das águas e a perda dos recursos pesqueiros, entre outros, disse Ostrom.
Penso também, que "quando os indivíduos têm esta forma de trabalhar juntos, pode construir confiança e respeito e podem ser capazes de solucionar problemas comuns”, explica.
Para a professora Elinor Ostrom, do campo da ciência política, "um funcionário que tenha PHD não significa necessariamente que ele saiba mais que as pessoas que vivem de um recurso. (...) Há muito conhecimento local que temos que respeitar".
O Comitê Nobel declarou que o trabalho de Ostrom desafia a crença popular de que uma propriedade comum mal administrada deve ser regulada pelo Estado ou privatizada. Demonstra em seus estudos de governança, que as comunidades detentoras do conhecimento local e gestoras de formas de trabalho social são capazes de construir práticas de gestão baseadas na participação, confiança e respeito para juntos solucionar os problemas enfrentados.
O prêmio deste ano, no caso de Elinor Ostrom, acompanha a onda global de preocupações com um planeta sustentável, afirma o jornalista brasileiro da área de economia José Paulo Kupfer. Para ele as pesquisas da professora Ostrom, relatadas em livro traduzido no Brasil este ano, no qual ela é uma das organizadoras Ecossistemas florestais, 544 páginas, editora SENAC São Paulo, concluem não haver regime de posse – privado, comum ou governamental – superior a outro quando se trata do bem-estar das florestas. “A evidência é que as regras de uso, associadas ao manejo dos recursos, independentemente do regime de propriedade, determinam as condições das florestas”.
No caso de Williamson, ao contrário. Segundo Kupfer, o júri do Nobel de Economia reafirma uma preferência por pesquisas sobre o funcionamento dos mercados, a partir de visões neoclássicas e/ou comportamentais. “Ainda sem obras traduzidas em português (não encontrei nada na pesquisa que fiz), o premiado de 2009 é pelo menos o terceiro, em cerca de década e meia, a dedicar-se, principalmente, a estudos no campo da chamada Economia Institucional. As ações das pessoas, enquanto agentes econômicos, limitadas pelo conjunto de regras e normas que definem a vida em sociedade são o foco das pesquisas de Williamson”, conclui.
A Academia Real Sueca deu a Ostrom metade do prêmio de 1,4 milhão de dólares, com a outra metade indo para Williamson. O Prêmio Nobel de Economia, oficialmente, é chamado de Prêmio Sveriges Riksbank em Ciências Econômicas e foi criado em 1968, em Memória de Alfred Nobel.
Fonte: http://colunistas.ig.com.br/jpkupfer
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Manifesto em Defesa do MST
Manifesto em defesa do MST
Contra a violência do agronegócio e a criminalização das lutas sociais
*Para assinar o manifesto clique aqui!
As grandes redes de televisão repetiram à exaustão, há algumas semanas, imagens da ocupação realizada por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em terras que seriam de propriedade do Sucocítrico Cutrale, no interior de São Paulo. A mídia foi taxativa em classificar a derrubada de alguns pés de laranja como ato de vandalismo.
Uma informação essencial, no entanto, foi omitida: a de que a titularidade das terras da empresa é contestada pelo Incra e pela Justiça. Trata-se de uma grande área chamada Núcleo Monções, que possui cerca de 30 mil hectares. Desses 30 mil hectares, 10 mil são terras públicas reconhecidas oficialmente como devolutas e 15 mil são terras improdutivas. Ao mesmo tempo, não há nenhuma prova de que a suposta destruição de máquinas e equipamentos tenha sido obra dos sem-terra.
Na ótica dos setores dominantes, pés de laranja arrancados em protesto representam uma imagem mais chocante do que as famílias que vivem em acampamentos precários desejando produzir alimentos.
Bloquear a reforma agrária
Há um objetivo preciso nisso tudo: impedir a revisão dos índices de produtividade agrícola – cuja versão em vigor tem como base o censo agropecuário de 1975 – e viabilizar uma CPI sobre o MST. Com tal postura, o foco do debate agrário desloca-se dos responsáveis pela desigualdade e concentração para criminalizar os que lutam pelo direito do povo. A revisão dos índices evidenciaria que, apesar de todo o avanço técnico, boa parte das grandes propriedades não é tão produtiva quanto seus donos alegam e estaria, assim, disponível para a reforma agrária.
Para mascarar tal fato, está em curso um grande operativo político das classes dominantes objetivando golpear o principal movimento social brasileiro, o MST. Deste modo, prepara-se o terreno para mais uma ofensiva contra os direitos sociais da maioria da população brasileira.
O pesado operativo midiático-empresarial visa isolar e criminalizar o movimento social e enfraquecer suas bases de apoio. Sem resistências, as corporações agrícolas tentam bloquear, ainda mais severamente, a reforma agrária e impor um modelo agroexportador predatório em termos sociais e ambientais, como única alternativa para a agropecuária brasileira.
Concentração fundiária
A concentração fundiária no Brasil aumentou nos últimos dez anos, conforme o Censo Agrário do IBGE. A área ocupada pelos estabelecimentos rurais maiores do que mil hectares concentra mais de 43% do espaço total, enquanto as propriedades com menos de 10 hectares ocupam menos de 2,7%. As pequenas propriedades estão definhando enquanto crescem as fronteiras agrícolas do agronegócio.
Conforme a Comissão Pastoral da Terra (CPT, 2009) os conflitos agrários do primeiro semestre deste ano seguem marcando uma situação de extrema violência contra os trabalhadores rurais. Entre janeiro e julho de 2009 foram registrados 366 conflitos, que afetaram diretamente 193.174 pessoas, ocorrendo um assassinato a cada 30 conflitos no 1º semestre de 2009. Ao todo, foram 12 assassinatos, 44 tentativas de homicídio, 22 ameaças de morte e 6 pessoas torturadas no primeiro semestre deste ano.
Não violência
A estratégia de luta do MST sempre se caracterizou pela não violência, ainda que em um ambiente de extrema agressividade por parte dos agentes do Estado e das milícias e jagunços a serviço das corporações e do latifúndio. As ocupações objetivam pressionar os governos a realizar a reforma agrária.
É preciso uma agricultura socialmente justa, ecológica, capaz de assegurar a soberania alimentar e baseada na livre cooperação de pequenos agricultores. Isso só será conquistado com movimentos sociais fortes, apoiados pela maioria da população brasileira.
Contra a criminalização das lutas sociais
Convocamos todos os movimentos e setores comprometidos com as lutas a se engajarem em um amplo movimento contra a criminalização das lutas sociais, realizando atos e manifestações políticas que demarquem o repúdio à criminalização do MST e de todas as lutas no Brasil.
Assinam:
Ana Clara Ribeiro
Ana Esther Ceceña
Boaventura de Sousa Santos
Carlos Nelson Coutinho
Carlos Walter Porto-Gonçalves
Claudia Santiago
Claudia Korol
Ciro Correia
Chico Alencar
Chico de Oliveira
Daniel Bensaïd
Demian Bezerra de Melo
Fernando Vieira Velloso
Eduardo Galeano
Eleuterio Prado
Emir Sader
Gaudêncio Frigotto
Gilberto Maringoni
Gilcilene Barão
Heloisa Fernandes
Isabel Monal
István Mészáros
Ivana Jinkings
José Paulo Netto
Lucia Maria Wanderley Neves
Luis Acosta
Marcelo Badaró Mattos
Marcelo Freixo
Maria Orlanda Pinassi
Marilda Iamamoto
Maurício Vieira Martins
Mauro Luis Iasi
Michael Lowy
Otilia Fiori Arantes
Paulo Arantes
Paulo Nakatani
Plínio de Arruda Sampaio
Reinaldo A. Carcanholo
Ricardo Antunes
Ricardo Gilberto Lyrio Teixeira
Roberto Leher
Sara Granemann
Sergio Romagnolo
Virgínia Fontes
Vito Giannotti
Contra a violência do agronegócio e a criminalização das lutas sociais
*Para assinar o manifesto clique aqui!
As grandes redes de televisão repetiram à exaustão, há algumas semanas, imagens da ocupação realizada por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em terras que seriam de propriedade do Sucocítrico Cutrale, no interior de São Paulo. A mídia foi taxativa em classificar a derrubada de alguns pés de laranja como ato de vandalismo.
Uma informação essencial, no entanto, foi omitida: a de que a titularidade das terras da empresa é contestada pelo Incra e pela Justiça. Trata-se de uma grande área chamada Núcleo Monções, que possui cerca de 30 mil hectares. Desses 30 mil hectares, 10 mil são terras públicas reconhecidas oficialmente como devolutas e 15 mil são terras improdutivas. Ao mesmo tempo, não há nenhuma prova de que a suposta destruição de máquinas e equipamentos tenha sido obra dos sem-terra.
Na ótica dos setores dominantes, pés de laranja arrancados em protesto representam uma imagem mais chocante do que as famílias que vivem em acampamentos precários desejando produzir alimentos.
Bloquear a reforma agrária
Há um objetivo preciso nisso tudo: impedir a revisão dos índices de produtividade agrícola – cuja versão em vigor tem como base o censo agropecuário de 1975 – e viabilizar uma CPI sobre o MST. Com tal postura, o foco do debate agrário desloca-se dos responsáveis pela desigualdade e concentração para criminalizar os que lutam pelo direito do povo. A revisão dos índices evidenciaria que, apesar de todo o avanço técnico, boa parte das grandes propriedades não é tão produtiva quanto seus donos alegam e estaria, assim, disponível para a reforma agrária.
Para mascarar tal fato, está em curso um grande operativo político das classes dominantes objetivando golpear o principal movimento social brasileiro, o MST. Deste modo, prepara-se o terreno para mais uma ofensiva contra os direitos sociais da maioria da população brasileira.
O pesado operativo midiático-empresarial visa isolar e criminalizar o movimento social e enfraquecer suas bases de apoio. Sem resistências, as corporações agrícolas tentam bloquear, ainda mais severamente, a reforma agrária e impor um modelo agroexportador predatório em termos sociais e ambientais, como única alternativa para a agropecuária brasileira.
Concentração fundiária
A concentração fundiária no Brasil aumentou nos últimos dez anos, conforme o Censo Agrário do IBGE. A área ocupada pelos estabelecimentos rurais maiores do que mil hectares concentra mais de 43% do espaço total, enquanto as propriedades com menos de 10 hectares ocupam menos de 2,7%. As pequenas propriedades estão definhando enquanto crescem as fronteiras agrícolas do agronegócio.
Conforme a Comissão Pastoral da Terra (CPT, 2009) os conflitos agrários do primeiro semestre deste ano seguem marcando uma situação de extrema violência contra os trabalhadores rurais. Entre janeiro e julho de 2009 foram registrados 366 conflitos, que afetaram diretamente 193.174 pessoas, ocorrendo um assassinato a cada 30 conflitos no 1º semestre de 2009. Ao todo, foram 12 assassinatos, 44 tentativas de homicídio, 22 ameaças de morte e 6 pessoas torturadas no primeiro semestre deste ano.
Não violência
A estratégia de luta do MST sempre se caracterizou pela não violência, ainda que em um ambiente de extrema agressividade por parte dos agentes do Estado e das milícias e jagunços a serviço das corporações e do latifúndio. As ocupações objetivam pressionar os governos a realizar a reforma agrária.
É preciso uma agricultura socialmente justa, ecológica, capaz de assegurar a soberania alimentar e baseada na livre cooperação de pequenos agricultores. Isso só será conquistado com movimentos sociais fortes, apoiados pela maioria da população brasileira.
Contra a criminalização das lutas sociais
Convocamos todos os movimentos e setores comprometidos com as lutas a se engajarem em um amplo movimento contra a criminalização das lutas sociais, realizando atos e manifestações políticas que demarquem o repúdio à criminalização do MST e de todas as lutas no Brasil.
Assinam:
Ana Clara Ribeiro
Ana Esther Ceceña
Boaventura de Sousa Santos
Carlos Nelson Coutinho
Carlos Walter Porto-Gonçalves
Claudia Santiago
Claudia Korol
Ciro Correia
Chico Alencar
Chico de Oliveira
Daniel Bensaïd
Demian Bezerra de Melo
Fernando Vieira Velloso
Eduardo Galeano
Eleuterio Prado
Emir Sader
Gaudêncio Frigotto
Gilberto Maringoni
Gilcilene Barão
Heloisa Fernandes
Isabel Monal
István Mészáros
Ivana Jinkings
José Paulo Netto
Lucia Maria Wanderley Neves
Luis Acosta
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