Manifesto em defesa do MST
Contra a violência do agronegócio e a criminalização das lutas sociais
*Para assinar o manifesto clique aqui!
As grandes redes de televisão repetiram à exaustão, há algumas semanas, imagens da ocupação realizada por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em terras que seriam de propriedade do Sucocítrico Cutrale, no interior de São Paulo. A mídia foi taxativa em classificar a derrubada de alguns pés de laranja como ato de vandalismo.
Uma informação essencial, no entanto, foi omitida: a de que a titularidade das terras da empresa é contestada pelo Incra e pela Justiça. Trata-se de uma grande área chamada Núcleo Monções, que possui cerca de 30 mil hectares. Desses 30 mil hectares, 10 mil são terras públicas reconhecidas oficialmente como devolutas e 15 mil são terras improdutivas. Ao mesmo tempo, não há nenhuma prova de que a suposta destruição de máquinas e equipamentos tenha sido obra dos sem-terra.
Na ótica dos setores dominantes, pés de laranja arrancados em protesto representam uma imagem mais chocante do que as famílias que vivem em acampamentos precários desejando produzir alimentos.
Bloquear a reforma agrária
Há um objetivo preciso nisso tudo: impedir a revisão dos índices de produtividade agrícola – cuja versão em vigor tem como base o censo agropecuário de 1975 – e viabilizar uma CPI sobre o MST. Com tal postura, o foco do debate agrário desloca-se dos responsáveis pela desigualdade e concentração para criminalizar os que lutam pelo direito do povo. A revisão dos índices evidenciaria que, apesar de todo o avanço técnico, boa parte das grandes propriedades não é tão produtiva quanto seus donos alegam e estaria, assim, disponível para a reforma agrária.
Para mascarar tal fato, está em curso um grande operativo político das classes dominantes objetivando golpear o principal movimento social brasileiro, o MST. Deste modo, prepara-se o terreno para mais uma ofensiva contra os direitos sociais da maioria da população brasileira.
O pesado operativo midiático-empresarial visa isolar e criminalizar o movimento social e enfraquecer suas bases de apoio. Sem resistências, as corporações agrícolas tentam bloquear, ainda mais severamente, a reforma agrária e impor um modelo agroexportador predatório em termos sociais e ambientais, como única alternativa para a agropecuária brasileira.
Concentração fundiária
A concentração fundiária no Brasil aumentou nos últimos dez anos, conforme o Censo Agrário do IBGE. A área ocupada pelos estabelecimentos rurais maiores do que mil hectares concentra mais de 43% do espaço total, enquanto as propriedades com menos de 10 hectares ocupam menos de 2,7%. As pequenas propriedades estão definhando enquanto crescem as fronteiras agrícolas do agronegócio.
Conforme a Comissão Pastoral da Terra (CPT, 2009) os conflitos agrários do primeiro semestre deste ano seguem marcando uma situação de extrema violência contra os trabalhadores rurais. Entre janeiro e julho de 2009 foram registrados 366 conflitos, que afetaram diretamente 193.174 pessoas, ocorrendo um assassinato a cada 30 conflitos no 1º semestre de 2009. Ao todo, foram 12 assassinatos, 44 tentativas de homicídio, 22 ameaças de morte e 6 pessoas torturadas no primeiro semestre deste ano.
Não violência
A estratégia de luta do MST sempre se caracterizou pela não violência, ainda que em um ambiente de extrema agressividade por parte dos agentes do Estado e das milícias e jagunços a serviço das corporações e do latifúndio. As ocupações objetivam pressionar os governos a realizar a reforma agrária.
É preciso uma agricultura socialmente justa, ecológica, capaz de assegurar a soberania alimentar e baseada na livre cooperação de pequenos agricultores. Isso só será conquistado com movimentos sociais fortes, apoiados pela maioria da população brasileira.
Contra a criminalização das lutas sociais
Convocamos todos os movimentos e setores comprometidos com as lutas a se engajarem em um amplo movimento contra a criminalização das lutas sociais, realizando atos e manifestações políticas que demarquem o repúdio à criminalização do MST e de todas as lutas no Brasil.
Assinam:
Ana Clara Ribeiro
Ana Esther Ceceña
Boaventura de Sousa Santos
Carlos Nelson Coutinho
Carlos Walter Porto-Gonçalves
Claudia Santiago
Claudia Korol
Ciro Correia
Chico Alencar
Chico de Oliveira
Daniel Bensaïd
Demian Bezerra de Melo
Fernando Vieira Velloso
Eduardo Galeano
Eleuterio Prado
Emir Sader
Gaudêncio Frigotto
Gilberto Maringoni
Gilcilene Barão
Heloisa Fernandes
Isabel Monal
István Mészáros
Ivana Jinkings
José Paulo Netto
Lucia Maria Wanderley Neves
Luis Acosta
Marcelo Badaró Mattos
Marcelo Freixo
Maria Orlanda Pinassi
Marilda Iamamoto
Maurício Vieira Martins
Mauro Luis Iasi
Michael Lowy
Otilia Fiori Arantes
Paulo Arantes
Paulo Nakatani
Plínio de Arruda Sampaio
Reinaldo A. Carcanholo
Ricardo Antunes
Ricardo Gilberto Lyrio Teixeira
Roberto Leher
Sara Granemann
Sergio Romagnolo
Virgínia Fontes
Vito Giannotti
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Honduras sigue!
Queria postar algo sobre Honduras e toda a tensão que predomina naquele país.
Resolvi não criticar a capa ridícula da Veja desta semana, pois Luiz Antônio Magalhães já o fez: clique aqui!
Coloco então em destaque o blog de um jornalista que está dentro da embaixada brasileira em Honduras, com outras 65 pessoas, inclusive Zelaya.
Além disso, posto um breve texto de Fidel Castro:
REFLEXIONES DE FIDEL
"Allí se engendra una Revolución"
Fidel Castro Ruz - Cuba
01.10.2009 - El pasado 16 de julio dije textualmente que el golpe de Estado en Honduras "fue concebido y organizado por personajes inescrupulosos de la extrema derecha, que eran funcionarios de confianza de George W. Bush y habían sido promovidos por él."
Cité los nombres de Hugo Llorens, Robert Blau, Stephen McFarland y Robert Callahan, embajadores yankis en Honduras, El Salvador, Guatemala y Nicaragua, nombrados por Bush los meses de julio y agosto de 2008 y que los cuatro seguían la línea de John Negroponte y Otto Reich, de tenebrosa historia.
Señalé la base yanki de Soto Cano como punto de apoyo principal del golpe de Estado y que "la idea de una iniciativa de paz a partir de Costa Rica fue transmitida al Presidente de ese país desde el Departamento de Estado cuando Obama estaba en Moscú y declaraba, en una universidad rusa, que el único Presidente de Honduras era Manuel Zelaya". Añadí que "con la reunión de Costa Rica se cuestionaba la autoridad de la ONU, la OEA y demás instituciones que comprometieron su apoyo al pueblo de Honduras y lo único correcto era demandar del Gobierno de Estados Unidos el cese de su intervención en Honduras y retirar de ese país la Fuerza de Tarea Conjunta."
La respuesta de Estados Unidos, tras el golpe de Estado en ese país de Centroamérica, ha sido pactar con el Gobierno de Colombia un acuerdo para crear siete bases militares, como la de Soto Cano, en ese hermano país, que amenazan a Venezuela, Brasil y todos los demás pueblos de Suramérica.
En un momento crítico, cuando se discute en una reunión cumbre de Jefes de Estado en Naciones Unidas la tragedia del cambio climático y la crisis económica internacional, los golpistas en Honduras amenazan con violar la inmunidad de la Embajada de Brasil, donde se encuentra el presidente Manuel Zelaya, su familia y un grupo de sus seguidores que fueron obligados a protegerse en ese recinto.
Está probado que el gobierno de Brasil no tuvo absolutamente nada que ver con la situación que allí se ha creado.
Es por tanto inadmisible, más aún inconcebible, que la Embajada brasileña sea asaltada por el gobierno fascista, a no ser que pretenda instrumentar su propio suicidio, arrastrando el país a una intervención directa de fuerzas extranjeras como ocurrió en Haití, lo que significaría la intervención de tropas yankis bajo la bandera de Naciones Unidas. Honduras no es un país lejano y aislado en el Caribe. Una intervención de fuerzas extranjeras en Honduras desataría un conflicto en Centroamérica y crearía un caos político en toda América Latina.
La heroica lucha del pueblo hondureño, después de casi 90 días de incesante batallar, ha puesto en crisis al gobierno fascista y pro yanki que reprime a hombres y mujeres desarmados.
Hemos visto surgir una nueva conciencia en el pueblo hondureño. Toda una legión de luchadores sociales se ha curtido en esa batalla. Zelaya cumplió su promesa de regresar. Tiene derecho a que se le restablezca en el Gobierno y presidir las elecciones. De los combativos movimientos sociales están destacándose nuevos y admirables cuadros, capaces de conducir a ese pueblo por los difíciles caminos que les espera a los pueblos de Nuestra América. Allí se engendra una Revolución.
La Asamblea de Naciones Unidas puede ser histórica en dependencia de sus aciertos o errores.
Los líderes mundiales han expuesto temas de gran interés y complejidad. Ellos reflejaron la magnitud de las tareas que la humanidad tiene por delante y cuán escaso es el tiempo disponible.
Resolvi não criticar a capa ridícula da Veja desta semana, pois Luiz Antônio Magalhães já o fez: clique aqui!
Coloco então em destaque o blog de um jornalista que está dentro da embaixada brasileira em Honduras, com outras 65 pessoas, inclusive Zelaya.
Além disso, posto um breve texto de Fidel Castro:
REFLEXIONES DE FIDEL
"Allí se engendra una Revolución"
Fidel Castro Ruz - Cuba
01.10.2009 - El pasado 16 de julio dije textualmente que el golpe de Estado en Honduras "fue concebido y organizado por personajes inescrupulosos de la extrema derecha, que eran funcionarios de confianza de George W. Bush y habían sido promovidos por él."
Cité los nombres de Hugo Llorens, Robert Blau, Stephen McFarland y Robert Callahan, embajadores yankis en Honduras, El Salvador, Guatemala y Nicaragua, nombrados por Bush los meses de julio y agosto de 2008 y que los cuatro seguían la línea de John Negroponte y Otto Reich, de tenebrosa historia.
Señalé la base yanki de Soto Cano como punto de apoyo principal del golpe de Estado y que "la idea de una iniciativa de paz a partir de Costa Rica fue transmitida al Presidente de ese país desde el Departamento de Estado cuando Obama estaba en Moscú y declaraba, en una universidad rusa, que el único Presidente de Honduras era Manuel Zelaya". Añadí que "con la reunión de Costa Rica se cuestionaba la autoridad de la ONU, la OEA y demás instituciones que comprometieron su apoyo al pueblo de Honduras y lo único correcto era demandar del Gobierno de Estados Unidos el cese de su intervención en Honduras y retirar de ese país la Fuerza de Tarea Conjunta."
La respuesta de Estados Unidos, tras el golpe de Estado en ese país de Centroamérica, ha sido pactar con el Gobierno de Colombia un acuerdo para crear siete bases militares, como la de Soto Cano, en ese hermano país, que amenazan a Venezuela, Brasil y todos los demás pueblos de Suramérica.
En un momento crítico, cuando se discute en una reunión cumbre de Jefes de Estado en Naciones Unidas la tragedia del cambio climático y la crisis económica internacional, los golpistas en Honduras amenazan con violar la inmunidad de la Embajada de Brasil, donde se encuentra el presidente Manuel Zelaya, su familia y un grupo de sus seguidores que fueron obligados a protegerse en ese recinto.
Está probado que el gobierno de Brasil no tuvo absolutamente nada que ver con la situación que allí se ha creado.
Es por tanto inadmisible, más aún inconcebible, que la Embajada brasileña sea asaltada por el gobierno fascista, a no ser que pretenda instrumentar su propio suicidio, arrastrando el país a una intervención directa de fuerzas extranjeras como ocurrió en Haití, lo que significaría la intervención de tropas yankis bajo la bandera de Naciones Unidas. Honduras no es un país lejano y aislado en el Caribe. Una intervención de fuerzas extranjeras en Honduras desataría un conflicto en Centroamérica y crearía un caos político en toda América Latina.
La heroica lucha del pueblo hondureño, después de casi 90 días de incesante batallar, ha puesto en crisis al gobierno fascista y pro yanki que reprime a hombres y mujeres desarmados.
Hemos visto surgir una nueva conciencia en el pueblo hondureño. Toda una legión de luchadores sociales se ha curtido en esa batalla. Zelaya cumplió su promesa de regresar. Tiene derecho a que se le restablezca en el Gobierno y presidir las elecciones. De los combativos movimientos sociales están destacándose nuevos y admirables cuadros, capaces de conducir a ese pueblo por los difíciles caminos que les espera a los pueblos de Nuestra América. Allí se engendra una Revolución.
La Asamblea de Naciones Unidas puede ser histórica en dependencia de sus aciertos o errores.
Los líderes mundiales han expuesto temas de gran interés y complejidad. Ellos reflejaron la magnitud de las tareas que la humanidad tiene por delante y cuán escaso es el tiempo disponible.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Discurso de Formatura Ciências Sociais UFPR 2009/1
"Tudo que é sólido se desmancha no ar”, já dizia nosso velho e bom Karl Marx. E é exatamente essa a sensação que temos ao entrar no curso de Ciências Sociais. Em primeiro lugar, se sobrepõe a dificuldade de explicar aos pais e amigos o que é esse curso, escolhido às vezes por falta de opção, às vezes, por convicções revolucionárias ou, simplesmente, por um cálculo racional quanto às possibilidades de passar no vestibular. Muito bem, anos depois, nos formando, ainda não sabemos explicar ao certo o que é essa ciência que escolhemos para nossa graduação e, provavelmente, para o resto de nossas vidas.
Depois, no decorrer vêm as diversas crises. Muitos textos para ler, uma infinidade de atividades possíveis, áreas distintas, conceitos até então firmes que se tornam pó nas 2 primeiras aulas de sociologia. Vem a crise do terceiro semestre e com ela, metade da turma desaparece e então, facilmente entendemos porque sociais não tem, definitivamente, turmas fixas. As disciplinas optativas fazem com que tenhamos aulas com gente que já está no curso há quase 10 anos. Vamos a festas com os tipos mais distintos de pessoas e vemos, claramente, as mudanças pelas quais passam nossos colegas e que, no fundo, sabemos que também estamos passando. Quem tinha namorado terminou, quem era casado separou, os solteiros convictos agora têm filhos e família própria...até o tipo de música que escutamos foi sendo modificado pelas influências de um lugar místico chamado Reitoria da UFPR. Nos envolvemos nos mais diversos movimentos, manifestações, organizações políticas ou anti-políticas. Vimos a Polícia ser chamada para resolver problemas políticos e, nós, cientistas sociais em formação, aprendemos bem que os problemas do nosso país não se resolvem com polícia. Aprendemos que é nosso papel refletir sobre o que parece obvio, questionar o que parece certo e relativizar até os valores ditos universais.
Os professores aqui homenageados são aqueles que nos mostraram – e não são os únicos, ainda bem! – que nossa ciência é tão incerta quanto o mundo que pretendemos entender e, porque não?, também melhorar. Mas a incerteza, mesmo que eterna, é melhor que o dogma confortador e a dúvida é a única certeza que temos desde que adentramos ao mundo das ciências sociais e passamos a enxergar as coisas por outro ângulo. Nós nos tornamos os chatos de qualquer turma! Aqueles que vêem opressões, as mais variadas, em qualquer ambiente, em todas as relações e que têm sempre uma crítica “construtiva” a fazer. Mas também somos a suposta autoridade para falar de praticamente qualquer coisa nas rodas de conversa. Temos conhecimento (ainda que vago pelos textos lidos de madrugada) sobre o que fazem os Argonautas do Pacífico Ocidental (ou Pacífico Sul?), até o que significa o 18 Brumário de Luiz Bonaparte, passando por sociologias de quase tudo: da saúde, da educação, do meio-ambiente, da religião, de gênero, da política...enfim, temos um campo tão vasto de atuação que essa imensidão nos assusta.
Tendemos à especialização. Não que ela não seja necessária, em um mundo cada vez mais exigente e faminto de novas descobertas. Só precisamos ter o devido cuidado para não fazermos sociologia daquilo que ninguém mais conhece e, principalmente, que nosso conhecimento não seja tão abstrato e complexo, disfarçando dúvidas conceituais com palavras ininteligíveis, que mais ninguém, além dos próprios iniciados na ciência da sociedade, possa entender o que falamos e ter interesse no que estudamos. Somos uma ciência do social, que deveria, como qualquer ciência, conquistar também reconhecimento social. Como fazer isso? Não há um caminho pré-moldado, mas com certeza esse caminho passa por algo que, em nosso curso, ainda é veementemente ignorado. Uma palavrinha que é quase tabu, que todos sabem o que significa, mas que poucos se arriscam a tentar compreendê-la de fato: licenciatura!
Boa parte dos que se formam o fazem no bacharelado e vão deixando as disciplinas da licenciatura para trás. Aliás, disciplinas estas que muitas vezes, ao invés de nos encorajarem, nos fazem desistir de vez de sermos professores. Educadores então, num sentido mais amplo, em nossa área ainda é uma raridade. Estupefados com a complexidade das questões sociológicas, antropológicas e políticas, engessados diante de um sistema educacional que privilegia o tecnicismo, não sabemos como poderemos, algum dia, ser professores de ciências sociais para adolescentes. Nos parece, com certeza, muito mais plausível o mundo acadêmico ou a atividade profissional, mesmo que ainda debilmente desenvolvida, mas bem longe das escolas.
Aliás, outra grande contradição de nossa área. Como uma ciência que pode estudar quase tudo não tem campo de trabalho? Somos agora formados, mas não queremos engavetar o diploma e não trabalhar nessa área que escolhemos. Este é outro desafio de nossa jovem geração de cientistas sociais. Temos muito o que conquistar nessa sociedade que é nosso objeto de estudo. Há espaço para nós em cada canto, precisamos, no entanto, ainda nos convencer de nossa própria importância. Num mundo que explode diariamente em conflitos, em que predominam as crises, a concorrência desleal, o capitalismo da nova era, avassalador, corroendo o planeta ambiental e socialmente. Não há porque não nos inserirmos em cada canto, cada um com sua análise, tentando, conforme nossas possibilidades, entender os processos sociais que quase nos atropelam a cada dia. Seja na demarcação de terras indígenas e quilombolas, seja nas crises políticas e nas eleições, sejam as novas biotecnologias, as novas religiões pentecostais, as questões de gênero ou diversos outros “neo” fatos, estamos pesquisando, buscando dados e teorias, tentando, de forma quase heróica numa periferia científica, cultural, econômica e social, compreender os processos, ver suas causas e apontar para possíveis conseqüências...e, porque não?, soluções!
Talvez o que nos falte não seja campo de trabalho, mas ao contrário, uma delimitação dele, já que podemos sim fazer parte das mais diversas áreas, nos mais distintos projetos...nossa contribuição pode e deve ser aproveitada. Em primeiro lugar, porque podemos apontar coisas que outros profissionais, de outras áreas, não podem. Em segundo lugar porque estudamos vários anos em uma universidade pública, com o dinheiro público. Muitos de nós fomos bolsistas, outros não tiveram esse privilégio e trabalharam duro para conciliar sobrevivência financeira aos estudos, mas fomos, todos, privilegiados. Privilegiados por escolhermos área tão árdua, mas tão fascinante para estudar e trabalhar. Privilegiados por, dentre outros mais de 80 que entraram conosco, termos chegado ao final, privilegiados por estudarmos em uma universidade pública e gratuita, que, apesar de muitas vezes atacada por um privatismo irresponsável, ainda é, em nosso país, o reduto de boa educação e formação intelectual.
Somos, portanto, devedores. Devemos nossa parte de retorno – econômico também, é claro, mas principalmente social, nossa suposta especialidade – para com a comunidade que nos cerca e que, mesmo sem saber, custeou nossos estudos. Que responsabilidade é essa? A responsabilidade de quem enxerga a sociedade por um prisma sociológico. Responsabilidade de quem tem o dever ético e social, de defender a educação pública como forma de proporcionar alguma mudança social em nosso país.
Responsabilidades, tarefas, sonhos e trabalho não nos faltam...agora, creio que, cada um a seu modo já está buscando isso, nos cabe perceber nossa função social nesse emaranhado em que vivemos e usar, de forma honesta para conosco e para com os outros, tudo o que aprendemos nesses vários anos de estudantes de ciências sociais.
Cada cabeça, um sentido para a vida. Cada um de nós com suas peculiaridades, ideologias, crenças e dúvidas, mas cada um, a seu modo, tentará, com toda a certeza, fazer desse mundo que vivemos, estudamos e que tanto nos inquieta, um lugar um pouquinho melhor.
Depois, no decorrer vêm as diversas crises. Muitos textos para ler, uma infinidade de atividades possíveis, áreas distintas, conceitos até então firmes que se tornam pó nas 2 primeiras aulas de sociologia. Vem a crise do terceiro semestre e com ela, metade da turma desaparece e então, facilmente entendemos porque sociais não tem, definitivamente, turmas fixas. As disciplinas optativas fazem com que tenhamos aulas com gente que já está no curso há quase 10 anos. Vamos a festas com os tipos mais distintos de pessoas e vemos, claramente, as mudanças pelas quais passam nossos colegas e que, no fundo, sabemos que também estamos passando. Quem tinha namorado terminou, quem era casado separou, os solteiros convictos agora têm filhos e família própria...até o tipo de música que escutamos foi sendo modificado pelas influências de um lugar místico chamado Reitoria da UFPR. Nos envolvemos nos mais diversos movimentos, manifestações, organizações políticas ou anti-políticas. Vimos a Polícia ser chamada para resolver problemas políticos e, nós, cientistas sociais em formação, aprendemos bem que os problemas do nosso país não se resolvem com polícia. Aprendemos que é nosso papel refletir sobre o que parece obvio, questionar o que parece certo e relativizar até os valores ditos universais.
Os professores aqui homenageados são aqueles que nos mostraram – e não são os únicos, ainda bem! – que nossa ciência é tão incerta quanto o mundo que pretendemos entender e, porque não?, também melhorar. Mas a incerteza, mesmo que eterna, é melhor que o dogma confortador e a dúvida é a única certeza que temos desde que adentramos ao mundo das ciências sociais e passamos a enxergar as coisas por outro ângulo. Nós nos tornamos os chatos de qualquer turma! Aqueles que vêem opressões, as mais variadas, em qualquer ambiente, em todas as relações e que têm sempre uma crítica “construtiva” a fazer. Mas também somos a suposta autoridade para falar de praticamente qualquer coisa nas rodas de conversa. Temos conhecimento (ainda que vago pelos textos lidos de madrugada) sobre o que fazem os Argonautas do Pacífico Ocidental (ou Pacífico Sul?), até o que significa o 18 Brumário de Luiz Bonaparte, passando por sociologias de quase tudo: da saúde, da educação, do meio-ambiente, da religião, de gênero, da política...enfim, temos um campo tão vasto de atuação que essa imensidão nos assusta.
Tendemos à especialização. Não que ela não seja necessária, em um mundo cada vez mais exigente e faminto de novas descobertas. Só precisamos ter o devido cuidado para não fazermos sociologia daquilo que ninguém mais conhece e, principalmente, que nosso conhecimento não seja tão abstrato e complexo, disfarçando dúvidas conceituais com palavras ininteligíveis, que mais ninguém, além dos próprios iniciados na ciência da sociedade, possa entender o que falamos e ter interesse no que estudamos. Somos uma ciência do social, que deveria, como qualquer ciência, conquistar também reconhecimento social. Como fazer isso? Não há um caminho pré-moldado, mas com certeza esse caminho passa por algo que, em nosso curso, ainda é veementemente ignorado. Uma palavrinha que é quase tabu, que todos sabem o que significa, mas que poucos se arriscam a tentar compreendê-la de fato: licenciatura!
Boa parte dos que se formam o fazem no bacharelado e vão deixando as disciplinas da licenciatura para trás. Aliás, disciplinas estas que muitas vezes, ao invés de nos encorajarem, nos fazem desistir de vez de sermos professores. Educadores então, num sentido mais amplo, em nossa área ainda é uma raridade. Estupefados com a complexidade das questões sociológicas, antropológicas e políticas, engessados diante de um sistema educacional que privilegia o tecnicismo, não sabemos como poderemos, algum dia, ser professores de ciências sociais para adolescentes. Nos parece, com certeza, muito mais plausível o mundo acadêmico ou a atividade profissional, mesmo que ainda debilmente desenvolvida, mas bem longe das escolas.
Aliás, outra grande contradição de nossa área. Como uma ciência que pode estudar quase tudo não tem campo de trabalho? Somos agora formados, mas não queremos engavetar o diploma e não trabalhar nessa área que escolhemos. Este é outro desafio de nossa jovem geração de cientistas sociais. Temos muito o que conquistar nessa sociedade que é nosso objeto de estudo. Há espaço para nós em cada canto, precisamos, no entanto, ainda nos convencer de nossa própria importância. Num mundo que explode diariamente em conflitos, em que predominam as crises, a concorrência desleal, o capitalismo da nova era, avassalador, corroendo o planeta ambiental e socialmente. Não há porque não nos inserirmos em cada canto, cada um com sua análise, tentando, conforme nossas possibilidades, entender os processos sociais que quase nos atropelam a cada dia. Seja na demarcação de terras indígenas e quilombolas, seja nas crises políticas e nas eleições, sejam as novas biotecnologias, as novas religiões pentecostais, as questões de gênero ou diversos outros “neo” fatos, estamos pesquisando, buscando dados e teorias, tentando, de forma quase heróica numa periferia científica, cultural, econômica e social, compreender os processos, ver suas causas e apontar para possíveis conseqüências...e, porque não?, soluções!
Talvez o que nos falte não seja campo de trabalho, mas ao contrário, uma delimitação dele, já que podemos sim fazer parte das mais diversas áreas, nos mais distintos projetos...nossa contribuição pode e deve ser aproveitada. Em primeiro lugar, porque podemos apontar coisas que outros profissionais, de outras áreas, não podem. Em segundo lugar porque estudamos vários anos em uma universidade pública, com o dinheiro público. Muitos de nós fomos bolsistas, outros não tiveram esse privilégio e trabalharam duro para conciliar sobrevivência financeira aos estudos, mas fomos, todos, privilegiados. Privilegiados por escolhermos área tão árdua, mas tão fascinante para estudar e trabalhar. Privilegiados por, dentre outros mais de 80 que entraram conosco, termos chegado ao final, privilegiados por estudarmos em uma universidade pública e gratuita, que, apesar de muitas vezes atacada por um privatismo irresponsável, ainda é, em nosso país, o reduto de boa educação e formação intelectual.
Somos, portanto, devedores. Devemos nossa parte de retorno – econômico também, é claro, mas principalmente social, nossa suposta especialidade – para com a comunidade que nos cerca e que, mesmo sem saber, custeou nossos estudos. Que responsabilidade é essa? A responsabilidade de quem enxerga a sociedade por um prisma sociológico. Responsabilidade de quem tem o dever ético e social, de defender a educação pública como forma de proporcionar alguma mudança social em nosso país.
Responsabilidades, tarefas, sonhos e trabalho não nos faltam...agora, creio que, cada um a seu modo já está buscando isso, nos cabe perceber nossa função social nesse emaranhado em que vivemos e usar, de forma honesta para conosco e para com os outros, tudo o que aprendemos nesses vários anos de estudantes de ciências sociais.
Cada cabeça, um sentido para a vida. Cada um de nós com suas peculiaridades, ideologias, crenças e dúvidas, mas cada um, a seu modo, tentará, com toda a certeza, fazer desse mundo que vivemos, estudamos e que tanto nos inquieta, um lugar um pouquinho melhor.
sábado, 26 de setembro de 2009
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Maranhão!
O Maranhão fica no Brasil!?!?!?
- Para nascer, Maternidade Marly Sarney;
- Para morar, escolha uma das vilas: Sarney, Sarney Filho, Kiola Sarney ou, Roseana Sarney;
- Para estudar, há as seguintes opções de escolas: Sarney Neto, Roseana Sarney, Fernando Sarney, Marly Sarney e José Sarney;
- Para pesquisar, apanhe um táxi no Posto de Saúde Marly Sarney e vá até a Biblioteca José Sarney, que fica na maior universidade particular do Estado do Maranhão, que o povo jura que pertence a um tal de José Sarney;
- Para inteirar-se das notícias, leia o jornal O Estado do Maranhão, ou ligue a TV na TV Mirante, ou, se preferir ouvir rádio, sintonize as Rádios Mirante AM e FM, todas do tal José Sarney.
- Se estiver no interior do Estado ligue para uma das 35 emissoras de rádio ou 13 repetidoras da TV Mirante, todas do mesmo proprietário, do tal José Sarney;
- Para saber sobre as contas públicas, vá ao Tribunal de Contas Roseana Murad Sarney (recém batizado com esse nome, coisa proibida pela Constituição, lei que no Estado do Maranhão não tem nenhum valor);
- Para entrar ou sair da cidade, atravesse a Ponte José Sarney, pegue a Avenida José Sarney, vá até a Rodoviária Kiola Sarney. Lá, se quiser, pegue um ônibus caindo aos pedaços, ande algumas horas pelas 'maravilhosas' rodovias maranhenses e aporte no município José Sarney.
Não gostou de nada disso? Então quer reclamar? Vá, então, ao Fórum José Sarney, procure a Sala de Imprensa Marly Sarney, informe-se e dirija-se à Sala de Defensoria Pública Kiola Sarney...
Seria cômico se não fosse trágico!
Já fizeram um abaixo assinado pra trocar o nome do Estado.
Adivinha.....
Infelizmente, o texto é verdadeiro.
- Para nascer, Maternidade Marly Sarney;
- Para morar, escolha uma das vilas: Sarney, Sarney Filho, Kiola Sarney ou, Roseana Sarney;
- Para estudar, há as seguintes opções de escolas: Sarney Neto, Roseana Sarney, Fernando Sarney, Marly Sarney e José Sarney;
- Para pesquisar, apanhe um táxi no Posto de Saúde Marly Sarney e vá até a Biblioteca José Sarney, que fica na maior universidade particular do Estado do Maranhão, que o povo jura que pertence a um tal de José Sarney;
- Para inteirar-se das notícias, leia o jornal O Estado do Maranhão, ou ligue a TV na TV Mirante, ou, se preferir ouvir rádio, sintonize as Rádios Mirante AM e FM, todas do tal José Sarney.
- Se estiver no interior do Estado ligue para uma das 35 emissoras de rádio ou 13 repetidoras da TV Mirante, todas do mesmo proprietário, do tal José Sarney;
- Para saber sobre as contas públicas, vá ao Tribunal de Contas Roseana Murad Sarney (recém batizado com esse nome, coisa proibida pela Constituição, lei que no Estado do Maranhão não tem nenhum valor);
- Para entrar ou sair da cidade, atravesse a Ponte José Sarney, pegue a Avenida José Sarney, vá até a Rodoviária Kiola Sarney. Lá, se quiser, pegue um ônibus caindo aos pedaços, ande algumas horas pelas 'maravilhosas' rodovias maranhenses e aporte no município José Sarney.
Não gostou de nada disso? Então quer reclamar? Vá, então, ao Fórum José Sarney, procure a Sala de Imprensa Marly Sarney, informe-se e dirija-se à Sala de Defensoria Pública Kiola Sarney...
Seria cômico se não fosse trágico!
Já fizeram um abaixo assinado pra trocar o nome do Estado.
Adivinha.....
Infelizmente, o texto é verdadeiro.
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